Blog Alma Missionária

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terça-feira, 21 de maio de 2013


Vem, Espírito Santo, vem!

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Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues 
Bispo de Sorocaba (SP)
Celebramos hoje o domingo de Pentecostes. No quinquagésimo dia depois da Páscoa, no contexto da festa judaica de pentecostes, que reunia judeus e prosélitos de toda a parte, o Espírito Santo, prometido por Jesus, manifestou-se poderosamente nos apóstolos, que imediatamente começaram a dar testemunho de Cristo.
Há uma passagem do evangelho de São João à qual o Papa João Paulo II deu especial atenção na segunda parte de sua encíclica sobre o Espírito Santo, “Dominum et Vivificantem” – “Senhor que dá a vida”. Nessa passagem Jesus, ao anunciar a vinda do Espírito Santo, afirma: «E Ele, quando vier, convencerá o mundo quanto ao pecado, quanto à justiça e quanto ao juízo». João Paulo II discorre sobre esta passagem a partir da própria explicação de Jesus: “Quanto ao pecado, porque não crêem em mim; quanto à justiça, porque eu vou para o Pai e não me vereis mais; e quanto ao juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado».
Sendo o Espírito da Verdade, o Espírito Santo fará tomar consciência do pecado que consistiu em rejeitar Jesus e, ao mesmo tempo, revelará que Jesus era justo sendo aceito e glorificado pelo Pai, e que, por essa razão o príncipe desse mundo, o inimigo de Deus e do ser humano, está derrotado. E João Paulo II concentra sua reflexão no “convencer sobre o pecado”, mostrando que essa ação do Espírito tem como meta a salvação. Para tal, retoma a primeira pregação de Pedro que, ao proclamar Jesus Ressuscitado, “que vós crucificastes”, suscita no coração dos ouvintes um profundo sentimento de arrependimento e os faz perguntar: «que havemos de fazer, irmãos?» O mesmo São Pedro respondeu-lhes: «Convertei-vos e peça cada um o Batismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo».
Convencer sobre o pecado é, pois, efeito da ação do Espírito naquele que é tocado pelo querigma. Isto que foi evidente para os que ouviram Pedro anunciar Jesus, “que vós crucificastes”, é também o que acontece conosco quando ouvimos a Palavra de Deus e nos colocamos diante dela com humildade e abertura de coração. Cremos que Jesus foi crucificado por nós em duplo sentido: a) nossos pecados são a causa de seus sofrimentos; b) Ele morreu por nós, em nosso favor, oferecendo-se ao Pai pela nossa salvação. É preciso ter a inteligência e o coração iluminados pelo Espírito Santo para compreender que, quando fazemos o mal ao próximo e a nós mesmos, desobedecendo a Deus, estamos crucificando Jesus.
Dizendo de outra forma: quando Jesus sofria a paixão e morte lá estavam todos os pecados e enfermidades da humanidade em todo o seu percurso histórico, do início ao fim do mundo. A pessoa que trouxer no coração uma boa dose de solidariedade humana poderá compreender esse mistério de infinita solidariedade de alguém que de tal modo teve seu coração humano dilatado que foi capaz de abrigar em seu interior toda a dor da humanidade, assumindo todas as suas misérias. As pessoas capazes de compaixão diante de uma humanidade desfigurada pelo mal poderão entender um pouco a compaixão de Deus que enviou o Filho ao mundo, não para condená-lo, mas para salvá-lo. Poderão inclusive, iluminadas pelo Espírito, compreender a palavra de Jesus do cimo da Cruz: “Pai, Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”.
Meditemos mais um pouco sobre o que significa convencer o mundo sobre o pecado. Nosso mundo é especialmente avesso à idéia de pecado. Há uma exaltação da liberdade humana que acaba por tornar as pessoas escravas de si mesmas, vítimas dos movimentos espontâneos de suas paixões e de seus desequilíbrios, agora entendidos como naturais e fonte de direitos. O conceito de pecado está banido de uma cultura que cada vez mais apela equivocadamente para a laicidade do Estado e se coloca contra qualquer tentativa de propor normas morais, erroneamente interpretadas como preceitos meramente religiosos. A permissividade e a exaltação da “farra”, em nome da liberdade e do direito de ser feliz, ganharam enorme espaço na vida da sociedade. Os psicólogos com freqüência alertam para a falta de limites na educação das crianças. A noção de limites está banida desta “cultura” despejada todos os dias sobre nosso povo. A lista de disparates éticos e pedagógicos que invadem a cultura atual é quase infinda.
No meio de tudo isso, entretanto, podemos verificar a ação do Espírito Santo, nas inúmeras conversões que acontecem pela pregação do evangelho. Como é reconfortador ver a juventude cristã se reunindo para orar e buscar força na palavra de Deus e nos sacramentos para amadurecer na prática do bem e no empenho em construir um mundo melhor. Reconhecer-se pecador, convencer-se sobre o próprio pecado é graça do Espírito Santo. Devemos pedir essa graça para nós mesmos e para os outros certos de que, sem o reconhecimento de nossos erros, não poderemos jamais acertar com o caminho da verdadeira felicidade. Oxalá toda a sociedade seja iluminada pelo Espírito Santo e a cultura de Pentecostes se faça presente na vida de nosso mundo!

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