Em sua coluna deste mês de junho do Jornal do Maranhão, falando sobre a Dei Verbum, padre Flávio Colins escreve que a palavra humana tem função apelativa. A palavra é sempre dirigida a alguém. Então aproveite e boa leitura!

Uma das
características da palavra humana é que ela tem uma função apelativa, é sempre
dirigida a alguém e espera deste uma resposta. Com a Palavra de Deus que, fala
aos homens à maneira humana, não é diferente; a sua palavra encontra
ressonância na humanidade, convidada e interpelada por ele a um diálogo. A Dei
Verbum, citando Paulo na carta aos Romanos (16,26) afirma: “A Deus que revela é devida a obediência da
fé (DV 5).
Deus, portanto,
dirigindo-se aos homens e mulheres, espera deles uma resposta que é a fé, isto
é, uma abertura e acolhida amorosas que envolvem a pessoa como um todo. A
Revelação é Alguém com quem se pode integrar a totalidade do nosso ser.
1. O
dom da fé
A Revelação é um
dom proveniente da gratuidade de Deus e a resposta a ela, também! A Fé, não é
fruto apenas da simples atividade humana, ela é uma graça concedida pelo Espírito
que leva as pessoas a crer, que lhes envolve e ilumina o coração e a mente
abrindo-os para Deus.
“Pela fé, “Entrega-se o homem todo, livremente, a
Deus, ‘oferecendo a Deus revelador o obséquio pleno da inteligência e da
vontade’ (DS 3008) e prestando voluntário assentimento à sua Revelação” (DV 5).”
A Escritura, do
começo ao fim, é testemunha desta abertura do coração e da mente requerida para
acolher a Deus. No AT, Abraão, que “acreditou
contra toda esperança e teve fé em Deus”
(Gn 15,6), é chamado o pai, na fé, de Israel e, também do povo cristão (Rm
4,3).
No NT a carta
aos Hebreus (c. 11) nos oferece uma boa meditação sobre como a fé em Deus moveu
o povo da primeira aliança. Mas, certamente o grande referencial é a mãe de
Jesus, a quem Isabel diz: “Feliz és tu
que creste” (Lc 1,45). As palavras de Maria “Eis aqui a serva do Senhor” expressam extraordinariamente a sua
acolhida, o seu consentimento e a sua disponibilidade à Revelação de Deus.
Estas duas
figuras singulares têm um lugar muito especial na fé da Igreja: Abraão é o
nosso pai na fé, ele é o primeiro a ‘crer’ e a acolher a Palavra daquele que se
revelará o Senhor da história, o Deus único e verdadeiro, é com ele que tem
início a história da salvação (Gn 12); Maria é colocada pela Igreja (LG
capítulo VIII) como modelo de fé, de vida e santidade, ela é a mãe de Cristo e
mãe da Igreja; ela é a ‘bem aventurada’ porque acreditou e o Senhor fez nela ‘grandes coisas’.
2. Fé
na Palavra e nas ações
A experiência de
Abraão, de Maria e de todos os personagens bíblicos é de que o Deus da
Revelação bíblica é o Deus que age. Para comunicar com os homens não lhe basta
a palavra. Ele põe em ato uma presença e uma presença operante. Deus se revela,
agindo.
Antes de
comunicar o decálogo Deus pronuncia o seu nome diante do povo: “Eu sou IHWH (o
Senhor), teu Deus” (Ex 20,2); e prossegue dizendo: “Aquele que te fez sair da
terra do Egito, da condição de escravidão” (Ex 20,2). Portanto, para explicar o
nome de Deus, a Bíblia não se baseia em uma natureza de Deus misteriosamente
escondida, mas na ação divina da libertação do Egito que ele acabou de cumprir.
Neste evento histórico Deus se manifestou ao seu povo como IHWH, isto é:
“Aquele que é, que é presente, é para, é com”.
“Nós vimos, ouvimos, contemplamos e tocamos o Verbo da Vida”, dizia João
(cf. 1Jo 1,1-4). A Revelação, afirma o Concílio, se cumpriu gestis verbisque, com eventos e palavras
(DV 2).
O termo ‘palavra’
em hebraico (dabar) significa ao
mesmo tempo palavra e acontecimento. A Palavra do Deus vivente
é, portanto, sempre ativa: opera salvação na história; revela o misterioso
desígnio de Deus no evento histórico e nesse faz conhecer a sua face; empenha a
pessoa, a julga, a salva chamando-a à fé. A história de Deus com o seu povo é
uma história que fala.

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