Blog Alma Missionária

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


SOBRE OS PADRES NA E DA MÍDIA


NA MÍDIA E DE MÍDIA
Comecemos pela primeira colocação. Nestes 45 anos de ministério, que também se estendeu à mídia, tentei sempre ser padre na mídia sem ser de mídia. Não sei se o consegui. Não é tão fácil entrar na mídia e ser livre para dizer o que queremos, colocar-nos diante de holofotes e microfones e o tempo todo ser porta-vozes da Igreja. Há sempre o risco de fidelidade mais à mídia que nos acolhe do que à Igreja. Por isso a distinção na e da…no mundo sem ser do mundo, na mídia sem ser da mídia.
Quem acha que é fácil ser neutro é porque não passou pelas pressões da comunicação moderna, que vem sempre atrelada a concessões, investimentos, grupos e projetos. Respeitemos, pois, os sacerdotes que decidiram ser de mídia e não padres na mídia. Critiquemos os que dizem ou deixam de dizer e não sua presença naqueles meios. Questionemos forma, catequese e conteúdo , mas não a ousadia de ir e a sinceridade de querer falar a milhões de ouvidos.
Se sei explicar minha opção de ir pouco e, em alguns casos, não ir, imagino que eles saibam explicar a deles. Aceitaram atrelar-se. Analisadas as perdas e danos, acharam que valia o risco de ir a programas de teor duvidoso e pouco cristão. Mesmo que sua presença ali não cristianizasse o lugar e o momento, seriam como Paulo no Areópago. E foram e vão.
O PEQUENO E O LONGO ALCANCE
Uma segunda colocação merece debate e estudo. Não digo que haja padres de pequeno alcance, assim como existem aves de voo curto e de voo longo. Seria anticristão e antidemocrático classificar pregadores em capacitados para falar a poucos e capacitados para falar a milhões. Mas a realidade aí está e não há como desconsiderá-la. Há profissionais e educadores preparados para dar aulas em universidades e outros em escolas primárias ou secundárias. Há o médico e o farmacêutico, o porteiro do hospital e o cirurgião; há o jornalista contratado por veículos de longo alcance e o que não tem conhecimento suficiente para jornalismo de maior alcance e incidência. Assim, os advogados, os diplomatas e os porta-vozes.
CAPACITADOS?
Chego ao ponto controverso que merece debate e reflexão. Pela cultura assimilada e demonstrada, mesmo que sejam sinceros, zeloso e piedosos, há sacerdotes e catequistas leigos falando para milhões de pessoas e atingindo mais de 100 dioceses, com evidente despreparo para a função. Demonstram não conhecer os documentos da Igreja, as falas do Papa, as principais encíclicas do nosso tempo, a Bíblia e o catecismo. Não estudaram, não estudam, não leem, não se atualizam em temas de toda a Igreja atrelados que estão a apenas um tema, um movimento ou uma forma de espiritualidade. Sua linguagem e seus vocábulos traem dependência de apenas um ângulo da fé católica. Deles se pode dizer que mesmo lendo 20 livros acabam fazendo sempre o mesmo discurso, enquanto outros, pela formação pregressa que foi vasta e sólida, de um novo livro conseguem fazer 2o discursos diferentes. Acumularam informação e saber. Pregam sermões de longo alcance.
MIDIA DE GRANDE ALCANCE, SERMÕES DE CONTEÚDO PARCO
O fato é que tem havido pregadores usando veículos de longo alcance para sermões de catequese pouca e pequena. Não tendo citado nomes não creio ter ofendido a ninguém em especial, mas vale o debate. Pode um sacerdote ou leigo que demonstra assustadora falta de leitura e inquietante desinformação e parca assimilação dos temas atuais da Igreja, pode ele falar a 100 ou 150 dioceses? Não seria o caso de convidar alguns dos milhares de professores e especialistas da Igreja que os há de norte a sul do país, para assumirem esta função que evidentemente, por mais querido e simpático e piedoso que seja o pregador, ele não tem como assumir?
Você o convidaria para dar um curso de catequese na sua paroquia ou diocese? Incluiria aquele pregador ou aquela pregadora entre os professores da sua faculdade ou escola? Confia na cultura e na capacidade de abrangência dele ou dela? Mas sua fala atinge milhões de fiéis de dioceses que gostariam de contar com educadores que aprofundem a catequese local.
MIDIA E PROTAGONISMO
Pela natureza da mídia, há determinados veículos que singularizam e colocam o pregador em nicho elevados e lhe dão destaque maior do que aos milhares de outros sacerdotes e leigos. De certa forma aquele púlpito e aquele pregador sobressaem não por seu conteúdo excepcional, mas por seu rosto, seus jeito, seu carisma e o marketing que recebeu. Sei disso porque tudo isso me foi oferecido. E aos 70 anos e 45 de sacerdócio e de mídia, sei do peso desta tentação. Quem não quer poder falar para 80 a 100 milhões de brasileiros? Meus amigos que me conhecem desde os anos 60 sabem que tracei uma linha midiática para minha vida. Não a ultrapassaria, por mais que aquele marketing me pusesse em poucos meses ou anos diante de 100 milhões de olhos e ouvidos.
Alguém me perguntou, numa grande empresa da qual eu não quis fazer parte, se eu não estava sendo um padre covarde ao fugir da chance de evangelizar 100 milhões de brasileiros. Foi soco no fígado. Devolvi o soco, lembrando que, se ele me procurava, era porque eu já estava repercutindo e pronto para a sua gravadora; portanto, quem conseguira formar um comunicador que canta em cinco línguas e escreve em três delas, que leciona, cria caminhos, escreve e repercute , fora a Igreja. Então, talvez, ao invés de covardia, eu estava era levando em conta a palavra dada e a gratidão. Por que ir para a mídia deles, se havia mídias da Igreja a pedir especialistas que a ajudassem a crescer? A Igreja me preparara e agora eu assinaria contrato com quem por 30 anos não investira um só centavo na minha formação? … Tornou-se meu amigo.
IGREJA, LITURGIA E MIDIA
De várias maneiras e por vários veículos a Igreja Católica se comunicou e se comunica. Às vezes era ousada e às vezes chegava atrasada. Quando o papa Dâmaso indicou o culto e expedito Jerônimo para agilizar uma versão da Bíblia e quando deu o mundo a Vulgata, foi avançada. Mas chegou com atraso quando da invenção da imprensa. Outras igrejas como a luterana e grupos ateus investiam pesadamente na imprensa quando finalmente a Igreja acordou para este veículo que desafiava o tradicional púlpito católico. Chegou atrasada e ainda não chegou pelo cinema, chegou com atraso pela televisão, investe pouco e caminha com enorme dificuldade para manter suas emissoras. O dízimo entre nós não em a força de outras igrejas e, mesmo sendo nós cerca de 70% da população não conseguimos arrecadar o suficiente para oferecer mídia competitiva no cenário do Brasil de hoje.
PROFUNDIDADE
Pio X alertava por escritos na mesma época do Motu Proprio, contra sermões superficiais, árias de opera usadas na liturgia e canções adocicadas que mais desprestigiavam do que ajudavam o culto eucarístico. João Paulo II e Bento XVI, só para citar alguns dos papas mais atuais ao falar da eucaristia, se mostraram preocupados com o excesso de protagonismo dos padres nos altares. Mas continuamos a ver o espetáculo de missas que mais parecem operetas, tal o volume de canções que não expressam o momento vivido. Além disso, registre-se a má execução das canções em missa dominicais por grupos que nem sequer ensaiam o que excetuam e a teimosia de alguns sacerdotes cantarem durante a missa que celebram sem o devido ensaio e com evidentes desafinações. O povo nem sempre fala, mas sofre com tais performances que mais distraem do que elevam. Canto há mais de quarenta anos e raramente alguém me viu cantando nas missas. Não é função do presidente da assembleia.
Vemos padres que não preparam os sermões quando há livros e revistas oferecendo conteúdo riquíssimos. Mas as revistas e os livros nem sempre são lidos. E há o pregador que se valoriza ao extremos diante das câmeras, usando todo o tempo de que dispõe para divulgar seus escritos e suas obras. Sobre os livros do papa, sobre os documentos, nem uma palavra… Os fiéis não são convidados a conhecer livros sólidos e profundos do nosso catequista-mor, cultíssimo e excelente comunicador, cujo nome é Bento XVI. Ele sabe falar aos doutos e ao povo simples nas suas homilias e preleções das quartas feiras. Mas o povo não sabe o que diz o papa porque o pregador midiático divulgou à farta suas produções, e não tocou nem de leve no nome das obras do catequista numero um da Igreja.
O fiel que for às estantes e livrarias achará dezenas de livros de padres midiáticos e quase nada dos teólogos e especialistas em doutrina e história da nossa fé porque estes não foram e não são divulgados. Ouve-se o compre meu novo livro, mas não se ouve, conheça o mais novo livro do Papa! É excesso de ênfase nos padres midiáticos que estão a milhas de distância do conteúdo do papa e dos bispos. Divulguemos nossos escritos, mas não nos esqueçamos de valorizar as grandes obras dos papas e dos bispos. O católico aprenderá mais com elas do que com nossos livros. Estamos lá para mostrar nossa Igreja e o pensamento dela, não o nosso!
SIMPATIA E MARKETING
Simpatia tem rimado intensamente com marketing, mas nem sempre rima com eclesiologia. Às vezes trai excessivo individualismo. Salienta-se demais o pregador, com primazia do mensageiro sobre a mensagem. Cabe a nós que atuamos na mídia e, em virtude da exposição alcançada somos mais procurados e lidos que os demais sacerdotes, muitos deles cultos e adrede preparados, apontar para eles e suas obras, chama-los para que o povo os conheça e mostrar o vasto acervo cultural da Igreja e não apenas nosso último Cd e nosso ultimo livro. Aí, estaríamos nos aproveitando da mídia, que é da Igreja Católica e não apenas do grupo que a criou, para nossos projetos e interesses. E quando estamos na mídia secular ou laica ainda assim somos porta-vozes de alguém maior do que nós.
SALIENTAR A IGREJA
Paulo afirmava: mihi vivere Christus (para mim viver é em Cristo). Para nós vale o adendo para mim pregar é revelar o Cristo e sua Igreja. Todo sacerdote ou leigo que milita na mídia católica deveria tomar a peito a decisão de mostrar os bons trabalhos de outras editoras, outros autores e outros comunicadores católicos, pela simples razão de que a Igreja é mais do que ele, sua editora ou seu grupo. Nossos ouvintes, telespectadores e admiradores têm o direito de conhecer outros pensadores e especialistas em catequese católica mais preparados do que nós e nós temos o dever de mostra-los a quem nos admira. É questão e coerência, humildade e caridade.
CRITÉRIOS
Num debate aberto sobre a presença do pregador na mídia, sendo ele comprometido com aquele veículo, portanto, de mídia, ou não comprometido, portanto, na mídia, tenhamos em vista
a) a necessidade da presença de pregadores na mídia religiosa e secular. A Igreja tem que estar lá onde se chega à multidão.
b) a oportunidade da presença de determinado pregador: olhe-se o preparo dele ou dela e sua capacidade de abrangência, isto é, sua capacidade de saber ser porta-voz de toda a nossa igreja ou só de determinada comunidade ou movimento. Domina a outras matérias terminologias e linguagens?
c) seu conhecimento de catecismo, de História da Igreja, de Bíblia e dos documentos principais da nossa Igreja
d) seu aprendizado e seu desejo constante de se atualizar.
Cabe aos bispos e outros pregadores, professores de comunicação, catequese e teologia apontar os eventuais deslizes a serem corrigidos, porque foram transmitidos para milhões de católicos. O sacerdote que disse que, se o fiel pagasse o dízimo para o seu programa e desse apenas uma contribuição para a paróquia, ensinou intencionalmente um erro. Deve ser contestado por todos os veículos possíveis e por aquele mesmo veículo, porque pôs seu grupo e sua mídia acima das dioceses e das paróquia por eles atingidas.
O sacerdote que convidou os fiéis da sua diocese a participarem, num estádio, de uma missa de cura e de libertação e deu o dia e a hora brincou com religião e de mídia. Primeiro, porque toda missa pode ser de cura e libertação, segundo porque, dando data e hora deu a entender que Deus curaria e libertaria no horário por ele proposto. Ora, o mesmo poderia acontecer nos outros horários e em qualquer paróquia da diocese. Além disso, quem cura e liberta é Deus e ele não depende do marketing de ninguém para atuar, nem depende de horário e local.
MIDIA QUE EXPLICA
Não faria sentido chegar a milhões de pessoas, se não se leva a elas o básico da fé católica. Mais importante do que chegar lá é saber o que levar quando se chega lá. Muito do que se diz na mídia precisa ser explicado porque o catolicismo é mais do que uma mística e um movimento. Se fiéis de algum grupo entendem aquelas preces ou práticas, os outros milhões de fiéis que não seguem o grupo que lidera aquela mídia entenderão errado e ficarão confusos ante as práticas e palavras dos detentores daquelas câmeras e microfones. Atendi a centenas de fiéis confusos com a cerimônia de libertação da maldição dos antepassados conduzidas numa emissora católica. A prece foi feita sem explicação alguma. Padres e leigos que apostaram na mídia têm o dever de falar a todos os católicos, em linguagem que todos os católicos possam entender. As particularidades do seu movimento fiquem para os salões, congressos e templos onde os membros congregam. Orar em línguas no Ato Penitencial um pouco antes do Pai Nosso é exercício errado de uso da mídia. Membros da RCC talvez entendam, mas não a maioria dos católicos que frequenta e vive outras expressões de catolicismo.
PARTICULARIDADES
Há coisas que ao padre de mídia ou na mídia não se permite, exatamente porque fala às dioceses em geral. Serve também para mim quando prego a visão dehoniana e libertadora da fé. Há termos que devem ficar apenas entre nós que lemos os escritos do nosso fundador, e sabemos o contexto em que foi dito, numa igreja que vivia uma situação extremamente delicada, após a perda dos Estados Pontifícios e sofria pressões de um crescente laicismo ateu.
ABRANGÊNCIAS
Resumindo: menos afunilamento e mais abrangência da catequese, menos individualismo e mais eclesialidade. Se o pregador famoso por conta de suas aparições na mídia não pode impedir que o admirem, com jeito e sabedoria pode impedir que o tratem como semideus. O fato de alguns precisarem de guarda-costas para se locomoverem mostra que alguma coisa lhes escapou ao controle. Os bispos e padres na sua imensa maioria não precisam. Então, alguém extrapolou e alguém deixou. Expor-se sem perder a liberdade é como ir à praia e sair bronzeado em sem bolhas. Excesso de sol queima o veranista. Excesso de holofotes queima o pregador!
Pe. Zezinho scj

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