Blog Alma Missionária

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sexta-feira, 12 de julho de 2013





TRATADO DO PURGATÓRIO


Tradução : Roberto

Cedido gentilmente pelo tradutor ao site Exsurge Domini www.exsurgedomini.kit.net e ou www.formacaocatolica.kit.net

NOTA PRELIMINAR


Esta é a parte mais conhecida e mais difundida do Corpus catherinianum. Foi elogiada por teólogos, reeditada muitas vezes e traduzida à parte do restante. Se Lutero a tivesse conhecido, talvez opusesse menos objeções ao dogma do purgatório.

Pouco lhe convém o título que os primeiros editores lhe deram e que a tradição conservou. O opúsculo não tem de modo algum o porte de um tratado. Posto isso, apresentam-se duas questões. 


1.  AUTENTICIDADE

Alguns a contestaram ou questionaram.  Talvez baste explicitar os termos para que todos se ponham de acordo.

Santa Catarina de Gênova nada escreveu do próprio punho. Terá ditado a exposição metódica de uma doutrina?  Isso tampouco. Neste sentido, não existe um Tratado do Purgatório.

Mas Catarina, no compasso de seus impulsos interiores, sem nenhum plano prestabelecido, confiava a seus íntimos algo de suas experiências místicas. Demorava-se em especial nas provações purificantes por que passou na última etapa da vida.  Nelas via uma antecipação e o análogo nesta vida do purgatório do além. Seus íntimos punham por escrito, da melhor forma que podiam, suas declarações, estas entre outras. Ao reunirem suas anotações com vistas a uma biografia, empenharam-se em  agrupar o que dizia respeito à doutrina do purgatório.



Já antes de 1520, na primeira redação da Vita, esse trabalho foi terminado em sua forma definitiva. Constituía o capítulo XLI.

Após um preâmbulo de algumas linhas, o capítulo começava com esta explicitação : « Dizia ela ... »

A edição de 1551 reproduziu essa redação quase sem modificá-la em seu texto. Para comodidade do leitor, os editores deslocaram esse trecho. Colocaram-no após a Vita e com um  título especial.

Este tratado tem inúmeras ligações com a Vita. Encontramos nesta última, já no texto de 1520, alusões e menções a essa doutrina, sempre em relação com as experiências da santa. Em suma, o purgatório não pode ser separado da Vita, não é nem mais nem menos autêntico que o todo de que faz parte.


2. APRESENTAÇÃO

Tanto na Vita de 1520 quanto na edição de 1551, o capítulo ou tratado do purgatório é apresentado em bloco, sem divisões nem subtítulos.

As edições seguintes introduziram uma divisão em dezessete capítulos. Em 1929, Valeriano da Finalmaria, capuchinho lígure, publicou uma nova edição, estabelecida diretamente sobre a edição prínceps de 1551. Dividiu-a em dezessete seções numeradas, sem contar o prólogo, e lhes deu novos sumários.

A tradução abaixo segue o texto e as divisões do Pe. Valeriano. Como os títulos não pertencem ao texto de 1551, aparecerão em negrito.







TRATADO DO PURGATÓRIO

DA BEM-AVENTURADA SENHORA
CATARINETA ADORNA


De como, em comparação com o fogo divino que sentia dentro de si mesma, ela compreendia o que era o purgatório, e de como ali as almas  se acham contentes e sofredoras.

Esta santa alma ainda em sua carne se viu estabelecida no purgatório do ardente amor de Deus. Ele a queimava toda e a purificava do que ela tinha de purificar, e assim, ao partir desta vida, ela pôde ser apresentada ao olhar de Deus, seu doce amor.  Por meio desse amor ardente, ela compreendia em si mesma em que estado se encontram no purgatório as almas dos fiéis, para purificar todo tipo de ferrugem e de mancha do pecado não ainda apagado durante esta vida.

Ela mesma, instalada no purgatório do divino fogo de amor, mantinha-se unida a seu divino amor, satisfeita com tudo o que Ele nela operava; compreendendo que  tal se passava com as almas que estão no purgatório, dizia ela (1) :

(1) Em sua exposição, a santa vai e volta, e sem avisar, do «purgatório» por ela já padecido ao de após a morte. O leitor será prevenido a respeito, quer pelos sumários, que por vezes foi preciso modificar para isso, quer por notas de rodapé.



1. Perfeita conformidade das almas do Purgatório com a vontade de Deus.

As almas que estão no purgatório, pelo que creio compreender, não podem ter outra escolha do que estar nesse lugar, pois essa é a vontade de Deus, que em sua justiça assim o decidiu. Tampouco podem voltar-se para si mesmas. Não podem dizer: cometi tais pecados e é por causa deles que mereço estar aqui. Não lhes é possível dizer: queria não ter cometido tais pecados, pois assim iria imediatamente ao paraíso. Também não : aquele sairá daqui antes de mim. Nem dizer: sairei antes dele. (2)

São  incapazes de ter de si mesmas ou dos outros alguma lembrança, nem no bem nem no mal, que possa aumentar seu sofrimento. Sentem, ao contrário, tal contentamento por estarem na condição querida por Deus e por Deus nelas realizar tudo o que quer, como quer, que não podem pensar em si mesmas nem sentir por isso nenhum aumento de dor.

Vêem só uma coisa, a bondade divina que nelas trabalha, essa misericórdia que se exerce sobre o homem para trazê-lo de volta a Deus. Por conseguinte, nem o bem nem o mal que lhes aconteça podem atrair seu olhar.




(2) As almas do purgatório, totalmente entregues ao amor, não têm mais nenhuma espécie de introspecção, são incapazes de dizer eu. Catarina de Gênova chegara a essa total abnegação de si mesma já em vida, como declara diversas vezes.

                  
Se essas almas pudessem tomar consciência disso, não mais estariam na pura caridade.

Tampouco podem considerar que estão nessas aflições por causa de seus pecados, esta idéia não lhes passa pela cabeça. Isso seria, de fato, uma imperfeição em ato (3), algo que não pode existir nesse lugar onde é impossível cometer um pecado.

Porque estão no purgatório, essa causa que nelas está, só lhes é dado vê-la uma só vez, no momento em que saem desta vida, e em seguida não a vêem nunca mais. Caso contrário, esse olhar seria uma introspecção.

Estando pois estabelecidas na caridade e dela não mais podendo desviar-se por um ato defeituoso, tornam-se incapazes de querer algo, de desejar algo, fora o puro querer da pura caridade. Colocadas nesse fogo purificante, elas ali estão na ordem querida por Deus. Essa disposição divina é puro amor, elas não podem desviar-se dele em nada, porque são incapazes de cometer pecado, assim como de fazer um ato meritório.


(3) Porque seria uma introspecção, um ato de amor-próprio, como a santa logo dirá.
Observemos como Catarina apresenta o « juízo particular », em sua nua simplicidade, bem distante das figuras e das imaginações: é um olhar da alma sobre si mesma à luz invisível de Deus (cuja visão ela não tem), ela se vê em sua verdade e se julga.



2. Alegria das almas do Purgatório. Sua crescente visão de Deus. A razão da ferrugem.

Não creio que possa haver contentamento comparável ao de uma alma do purgatório, salvo o dos santos no paraíso. A cada dia esse contentamento aumenta pela ação de Deus nessas almas, ação que vai crescendo conforme vai consumindo-se o que impede essa ação divina. Esse impecilho é a ferrugem do pecado. (4) O fogo vai consumindo progressivamente essa ferrugem e assim a alma se abre cada vez mais ao influxo divino.



Da mesma forma, um objeto que houvesse sido encoberto não pode corresponder ao brilho do sol, não porque o sol seja insuficiente, ele que continua a brilhar, mas pelo impecilho daquilo que recobre o objeto. Se vier a se consumir o obstáculo que o tolda, o objeto descobrir-se-á à ação do sol; ele a sofrerá cada vez mais, à medida que o obstáculo diminuir.

Assim a ferrugem, ou seja, o pecado (5) é o que recobre a alma. No purgatório, essa ferrugem é consumída pelo fogo. Quanto mais se consome, mais também a alma se expõe ao verdadeiro sol, a Deus. Sua alegria aumenta à medida que a ferrugem desaparece e que a alma se expõe ao raio divino. Assim, uma cresce e a outra diminui, até que o tempo seja consumado. Não é o sofrimento que diminui, mas unicamente o tempo de permanência nessa aflição.


(4) A ferrugem não é um resto de pecado, uma disposição má da vontade que fosse o efeito na alma dos pecados cometidos durante a vida terrestre: é uma sujeira da alma, exterior à sua vontade, uma falta de perfeição consecutiva aos pecados de antes, de que a vontade se desligou totalmente no momento da morte.

(5) Erro de leitura da edição. Deve-se ler: a ferrugem do pecado, conforme ao que é dito mais acima.


Quanto à vontade, essas almas jamais podem dizer que essas aflições sejam aflições, tão satisfeitas estão com as disposições divinas a que sua vontade está unida por pura caridade.


3. Sofrimentos das almas do Purgatório. A separação de Deus é sua maior dor.

Por outro lado, a dor que elas sofrem é tão extrema que não há língua que possa exprimi-la nem inteligência que possa captar a menor fagulha dela, se Deus não lha desvelar por uma graça toda especial. Essa fagulha, Deus concedeu a esta alma (6) a graça de lha mostrar, mas não posso exprimi-la pela língua. Esse conhecimento que Deus me fez ver jamais saiu de meu espírito. Dele direi o que puder e compreenderão aqueles a que o Senhor se dignar abrir o entendimento.

A fonte de todos os sofrimentos é o pecado, quer original, quer atual. Deus  criou a alma totalmente pura e simples, sem nenhuma mancha de pecado e com um instinto beatífico que a leva a Ele.

Desse instinto, o pecado original em que se encontra a afasta. O pecado atual, quando se soma a ela, dele a afasta ainda mais. Quanto mais ela se distancia dele, pior ela se faz, pois Deus se afina cada vez menos com ela.




(6) «Esta alma» é Catarina de Gênova, evitando nomear-se a si mesma, como São Paulo ao falar de suas visões ; « Conheço um homem...» (2 Cor.,12 ,2).


Tudo o que pode haver de bom nas criaturas só existe pela comunicação que Deus disso faz. Às criaturas não racionais, Deus o comunica segundo seus desígnios e jamais lhes falta.

Com a criatura racional, com a alma, ele corresponde mais ou menos na medida em que a vê purificada do impecilho do pecado. Quando existe uma alma que volte à pureza primeira de sua criação, o instinto de felicidade nela se revela e imediatamente cresce com tal veemência, tal ardor de caridade arrastando-a para seu fim último, que para ela é algo insuportável estar separada dele. Quanto mais tem consciência disso, mais extremo é seu tormento.


4. Diferença entre os condenados e as almas do purgatório.

As almas que estão no purgatório encontram-se sem a culpa do pecado. (7) Por conseguinte, não há obstáculo entre Deus e elas, afora esse tormento que as retém e que consiste no fato de seu instinto beatífico não ter atingido a  perfeição plena.

Vendo com toda certeza o quanto importa o menor impecilho, vendo que a justiça exige que sua atração seja retardada, nasce-lhes no coração um fogo de extrema violência, semelhante ao do inferno. 


(7) Intuição profunda de Catarina. Na morte, todo o sensível desaparece, todo o transitório se desvanece. A alma instala-se no absoluto. No além não há mais pecado venial. É a recusa ou o dom, ambos totais e definitivos. Na alma que está no purgatório reina a caridade divina sem mistura de pecado. Catarina volta a tratar disto mais adiante.


Há a diferença do pecado que torna má a vontade dos condenados do inferno; a estes Deus não comunica sua bondade. Permanecem nessa malícia desesperada, oposta à vontade de Deus.



Vemos com isso que essa oposição mesma da vontade má à vontade de Deus é o que constitui o pecado. Como a vontade se obstina no mal, o pecado também se conserva. Os do inferno partiram desta vida com a vontade má. Assim, seu pecado não é remido e não pode sê-lo, pois não podem mais mudar de vontade, uma vez que partiram desta vida assim dispostos. Nessa passagem, a alma instala-se definitivamente no bem ou no mal, ali se encontrando por sua vontade deliberada, conforme o que está escrito:  «Ali onde te encontrarei, ou seja, no momento da morte, com essa vontade ou de pecado ou de rejeição e de arrependimento do pecado, ali te julgarei.» (8)

Esse julgamento é sem remissão, pois após a morte a liberdade do livre querer já não está sujeita à mudança. Ela permanece congelada na disposição em que se achava no momento da morte.

Os do inferno, por terem-se achado nesse momento com a vontade de pecar, trazem consigo a culpa e a pena. Aquela é infinita; esta não é tão grave quanto mereceriam, mas a carregarão sem fim.

Os do  purgatório, ao contrário, têm apenas a pena, já que o pecado foi apagado no momento da morte, pois estavam contritos de seus erros e se arrependiam de ter ofendido a bondade de Deus. Assim, sua pena terá fim, ela vai diminuindo sem cessar ao longo do tempo, como ficou dito. (9)


(8) Este texto não está nas Escrituras santas. É uma palavra de Cristo relatada por São Justino e por outros dos primeiros Padres.

(9) Segundo Catarina, a pena diminui, não em intensidade, mas só em duração, à medida que se aproxima a libertação.



5. Deus mostra sua bondade até para com os condenados.

Esse castigo dos condenados não é infinito em quantidade. A razão disso é que a doce bondade divina estende o raio de sua misericórdia até o inferno.

Com efeito, o homem falecido em estado de pecado mortal merece um castigo infinito e por um tempo infinito. Mas a misericórdia de Deus dispôs que só o tempo fosse sem fim, e as penas limitadas em quantidade. Em toda justiça, poderia infligir-lhes uma pena maior.

Oh! que perigo o pecado cometido por mau querer! É com grande dificuldade que o homem dele se arrepende, e enquanto dele não se arrepende, o pecado permanece e esse pecado persiste enquanto o homem permanece na vontade do pecado que cometeu ou na vontade de cometê-lo.


6. Purificados do pecado, é com alegria que as almas do Purgatório       cumprem sua pena.



Mas as almas do purgatório mantêm sua vontade em total conformidade com a de Deus. Por conseguinte, Deus se harmoniza com elas em sua bondade e elas permanecem contentes (quanto à vontade) e purificadas da culpa do pecado original e do pecado atual.

Essas almas voltam a ser tão puras como quando Deus as criou. Quando  saem desta vida contritas de todos os pecados que cometeram, tendo-os confessado e animadas da vontade de não mais cometê-los, Deus as absolve imeditamente da culpa e nelas só resta a ferrugem do pecado. Em seguida, elas se purificam dessa ferrugem no fogo, pelo sofrimento.

Assim purificadas de toda culpa e unidas a Deus pela vontade, elas vêem Deus claramente, segundo o grau de conhecimento que Ele lhes concede; (10) também vêem o grande valor que há em desfrutar de Deus e que as almas são criadas exatamente para isso.


(10) Não se trata da visão face a face reservada ao céu, mas sim de um conhecimento mais claro que na terra, pois não há mais paixões nem percepções ou recordações sensíveis que prejudiquem sua nitidez.



7. Com que violento amor as almas do Purgatório aspiram a desfrutar de Deus. Exemplo do pão e do esfomeado.

Além disso, elas sentem uma conformidade tão unificante com Deus, e essa conformidade as empurra para Ele com uma força tão grande, pelo instinto natural que existe entre Deus e a alma, (11) que não podemos apresentar nenhum raciocínio, nenhuma comparação, nenhum exemplo que o possa explicar suficientemente no grau em que  a alma o sente em sua operação nela e por sua experiência íntima. Apresentarei porém um exemplo disso que me vem à mente.

Suponhamos que só houvesse no mundo inteiro um único pão para matar a fome de todas as criaturas; suponhamos também que só de ver esse pão os homens se saciassem.

Dado que o homem, a menos que esteja doente, tem  o instinto natural de comer, se  passasse a não mais comer, mesmo sendo preservado de doenças e da morte, sua fome cresceria sem parar, pois seu instinto de comer nunca diminuiria.

Sabe que só esse pão é capaz de saciá-lo; se não puder obtê-lo, sua fome não passará, ele permanecerá num tormento intolerável. Quanto mais dele se aproximar sem chegar, porém, a vê-lo, mais também aumentará o desejo natural que seu instinto concentra todo no pão em que se acha todo contentamento.




(11) Idéia enunciada mais de uma vez por Catarina. Há entre Deus e suas criaturas espirituais uma conformidade de natureza e sobrenatural que as atrai para Ele, se elas não o obstarem pelo pecado. Lembramo-nos de Sto. Agostinho : «Tu nos fizeste para ti, Senhor... »


Se soubesse com certeza que nunca lhe seria dado ver esse pão, nesse momento se realizaria o inferno para ele; estaria no estado das almas condenadas que são privadas de toda esperança de um dia chegar a ver o pão que é Deus, seu verdadeiro Salvador.

Mas as almas do purgatório têm a esperança de contemplar o pão e de com ele se saciarem plenamente. Por conseguinte, sofrem a fome e permanecem em seu tormento  enquanto são impedidas de se saciar com esse pão, Jesus Cristo, verdadeiro Deus Salvador, nosso Amor.


8. O Inferno e o Purgatório mostram a  admirável sabedoria de Deus.

Assim como o espírito limpo e purificado não encontra nenhum lugar de repouso senão Deus mesmo, pois foi criado com esse fim, assim também a alma pecadora só encontra lugar no inferno, pois Deus lho destinou para seu fim.

É por isso que no mesmo momento em que o espírito é separado do corpo, a alma dirige-se ao lugar que lhe é destinado, sem outro guia além da natureza mesma de seu pecado, quando a alma se separa do corpo em estado de pecado mortal.

Se a alma não encontrasse nesse mesmo momento esse lugar de destino que procede da justiça divina, ela estaria num inferno pior que o próprio inferno. Isso porque a alma se veria fora dessa disposição divina que não deixa de ter uma parte de misericórdia, pois a pena infligida não é tão grande quanto ela merece.  Por isso a alma, não encontrando nenhum lugar que lhe convenha mais nem lhe seja menos doloroso, pois Deus assim o dispôs, lança-se por si mesma no inferno, pois ali é seu lugar.

O mesmo se pode dizer do purgatório de que falamos. Separada do corpo, a alma que não se encontra nesse estado de limpeza em que Deus a criou, vendo em si mesma o obstáculo que a retém e sabendo que só pode ser elevada por meio do purgatório, ela nele se lança imediatamente e de bom grado.

Se não descobrisse esse meio disposto por Deus para livrá-la desse impedimento, imediatamente se formaria nela um inferno pior que o purgatório, pois ela se veria impedida de alcançar seu fim, que é Deus. Isso é para ela de tal importância que em comparação o purgatório é como se fosse nada, embora, como foi dito, o purgatório seja semelhante ao inferno. Mas é comparativamente que ele é como nada.




9. Necessidade do purgatório.

Acrescento também isto que vejo. Da parte de Deus, o paraíso está aberto, nele entra quem quiser. Pois Deus é todo misericórdia, permanece voltado para nós, de braços abertos para nos receber em sua glória. (12)


(12) Jesus disse: «Aquele que vem a mim eu não o rejeitarei» (João, 6,37).

        
Mas vejo por outro lado que essa divina essência é de tal pureza e limpeza, para além de tudo o que se possa imaginar, que a alma que tiver em si uma imperfeição tão mínima quanto uma minúscula palhinha, antes se lançaria em mil infernos a se ver com essa mancha na presença da majestade divina.

Assim, vendo que o purgatório foi feito para lhe tirar essas manchas, ela nele se lança. Vê que é uma grande misericórdia para ela esse meio de superar esse impedimento.


10. Como o purgatório é algo terrível.

A gravidade do purgatório, nem a língua pode explicar nem o espírito pode apreender. Só vejo isto : que ali os tormentos se igualam aos do inferno. Vejo porém que a alma que descobre a menor mancha de imperfeição o recebe, como foi dito, como um favor que lhe é feito. Em certo sentido, ela o considera como nada em comparação a essa mancha que retém o seu amor.

Vejo também que o tormento das almas do purgatório consiste bem mais em verem nelas mesmas algo que desagrada a Deus e que elas contraíram voluntariamente ao agirem contra uma tão grande bondade, do que em algum outro tormento por que passem no purgatório. Pois estando na graça divina, elas vêem a realidade e a importância desse impedimento que não lhes permite aproximar-se de Deus.

O que é tudo isso que acabamos de dizer em comparação com as evidências que me são dadas em minha mente (na medida em que as pude conceber nesta vida)? Diante de tais extremos, toda visão, toda palavra, todo sentimento, toda imaginação, toda justiça, toda verdade, tudo isso para mim não passa de ilusões e coisa de nada.

Fico confusa, por não poder encontrar expressões mais fortes.




11. O amor de Deus que atrai as almas santas e o impedimento que elas encontram no pecado são as causas dos tormentos do purgatório.

Vejo entre Deus e a alma uma incrível conformidade. Quando Ele a vê nessa pureza em que Sua majestade a criou, Ele lhe dá certa força de atração feita de amor ardente, capaz de reduzi-la a nada, embora seja imortal.

Ele a coloca num estado de tão perfeita transformação nEle, seu Deus, que ela se vê não sendo nada mais do que Deus. Ele a atrai continuamente a Si, abraça-a, não a deixa até que a tenha levado a esse ser divino de que ela procede, ou seja, a essa pureza na qual a criou.

A alma se vê, por uma visão interior, assim atraída por Deus com esse fogo de amor. Então, sob o ardor desse amor ardente de seu doce Senhor e Deus que ela sente brotar em seu espírito, ela se liqüefaz inteiramente.

À luz divina, ela vê como Deus não pára um instante de atraí-la para Si, para conduzi-la à sua perfeição total. Nisso Ele usa de uma atenção extrema, de uma solicitude contínua; em tudo isso, Deus só age por puro amor. Mas ela mesma, por esse obstáculo de pecado que nela subsiste, se vê impedida de se entregar a essa divina atração, ou seja, a esse olhar unitivo que Deus lhe deu para que ela seja atraída a Ele.

Ela vê também quanto lhe é doloroso esse atraso que a impede de contemplar a divina luz.

Soma-se a isso o instinto da alma impaciente de ser libertada desse impedimento, atraída que é por esse olhar unitivo. Digo que tudo isso e a visão que as almas têm disso é o que nelas gera a dor do purgatório.

Essa dor, porém, por maior que seja, elas não levam em conta.
Elas se ocupam muito mais da oposição que têm à vontade de Deus. Elas O vêem arder por elas com um amor extremo e puro. Esse amor, com seu olhar unitivo, as puxa para Si com uma potência extrema e contínua, como se nada mais tivesse a fazer.

Isso a tal ponto que se a alma pudesse descobrir um outro purgatório mais forte do que aquele em que se encontra, imediatamente se jogaria nele para se livrar mais rápido desse impedimento. Tão violento é o amor  de conformidade entre Deus e a alma.


12. Como Deus purifica as almas : exemplo do ouro no cadinho.



Desse divino Amor, vejo jorrarem em direção à alma raios e chamas ardentes, tão penetrantes e tão fortes que parecem capazes de reduzir a nada não só o corpo, mas a própria alma, se fosse possível.

Esses raios operam de duas maneiras: uma é de purificar, outra de aniquilar.

Vide o ouro. À medida que é fundido, vai melhorando. É possível fundi-lo até nele se destruir toda imperfeição.

Tal é o efeito do fogo nas coisas materiais. Com a diferença de que a alma não pode aniquilar-se em Deus, mas unicamente em seu ser próprio. Quanto mais a purificas, mais também ela se aniquila em si mesma e por fim é toda purificada em Deus.

O ouro, quando é purificado em vinte e quatro quilates, não se consome mais, seja qual for o fogo em que seja colocado. Só o que nele pode ser consumido é a sua própria imperfeição.

Assim opera na alma o fogo divino. Deus a mantém no fogo até que toda imperfeição seja consumida. Ele a leva à pureza total de vinte e quatro quilates, porém cada alma segundo seu grau. (13) Quando estiver purificada, ela permanece inteiramente em Deus, sem nada em si que lhe seja próprio, e seu ser é Deus.

Uma vez que Deus reconduziu a Si a alma assim purificada, esta então perde a capacidade de poder sofrer mais, pois não lhe resta mais nada para consumir. Se nesse estado de pureza ela fosse mantida no fogo, não sentiria nenhum sofrimento com isso. Esse fogo nada mais seria do que o do divino amor da vida eterna, sem nada de doloroso.


13. Como a alma vai, nesta vida, do pecado à pureza de amor. (14) Sabedoria de Deus que lhe mantém escondidas suas imperfeições.

A alma foi criada dotada de todas as boas disposições de que é capaz, para permitir-lhe alcançar sua perfeição, com a condição de que viva como Deus manda, sem se sujar de nenhuma mancha de pecado.

Ela porém se contaminou com o pecado original, que a faz perder seus dons de graça. Ela morreu, só pode ressuscitar por Deus. Quando renasce pelo batismo, resta-lhe a inclinação ao mal; essa inclinação a conduz, se não resistir a ela, até o pecado atual, pelo qual morre de novo.




(13) O purgatório purifica a alma sem aumentar sua caridade nem seu mérito.
(14) Neste # 13, a santa resume seu próprio caminho espiritual.


Novamente, Deus lhe devolve a vida. É uma graça totalmente particular que Ele lhe faz, pois ela está suja e voltada para si mesma. Para a reconduzir a seu primeiro estado, tal como Deus a criou, ela precisa dessas operações divinas, pois sem elas lhe seria para sempre impossível voltar-se de novo para Deus.

Quando a alma se põe a caminho para retornar a seu estado primitivo, tamanho é o ardor que a insta a se transformar em Deus que esse é o seu purgatório. Ela não encara esse purgatório como um purgatório, (15) mas esse instinto ardente e entravado constitui seu purgatório.

Este último ato de amor realiza sua obra sem que o homem participe. Há na alma tantas imperfeições ocultas que ela se desesperaria se lhe fosse dado vê-las. Este último estado consome todas elas.

Depois que foram consumidas, Deus as descobre à alma para que ela reconheça a obra divina nela realizada pelo fogo de amor. Foi ele que nela consumiu todas essas imperfeições que devem sê-lo.


(15) Trata-se aqui, diretamente, do « purgatório » padecido pela santa nesse período de sua vida, mas isso tambem vale para o purgatório do além.



14. Condições  para que um ato, nesta vida, seja perfeito. Alegria e dor da alma do Purgatório.

Saiba disto: a perfeição que o homem crê constatar em si para Deus não passa de defeito. De fato, tudo o que o homem realiza como sendo perfeição, todo conhecimento, todo sentimento, todo querer, toda lembrança, desde que não o faça remontar a Deus, tudo isso o infecta e o suja.

Para que esses atos sejam perfeitos, é necessário que sejam feitos em nós sem nós, sem que sejamos o seu primeiro agente, e que a operação de Deus seja feita em Deus sem que o homem seja sua causa primeira.



Só são perfeitos os atos que Deus realiza e conclui em seu amor puro e limpo, sem mérito de nossa parte. Eles penetram a alma tão profundamente e a tal ponto a incendiam que o corpo em que ela se acha se sente arder como se estivesse num grande braseiro que não se extinguirá antes da morte. (16)

É verdade, como o vejo, que o amor que vem de Deus e se reflete na alma nela causa um contentamento inexprimível; mas esse contentamento não diminui no mínimo que seja o sofrimento das almas do purgatório.


(16) A santa passa, ao mencionar a morte, às almas do purgatório.


Portanto, é esse amor que se vê entravado que constitui o sofrimento delas. Esse sofrimento é tanto maior quanto maior for a capacidade de amor e de perfeição que Deus deu a cada uma.

Assim, as almas do purgatório sentem ao mesmo tempo uma alegria extrema e um extremo sofrimento, sem que um seja obstáculo ao outro.


15. As almas do purgatório ainda não estão em condições de poder ter méritos. Como sua vontade se dispõe em relação às boas obras oferecidas neste mundo em sufrágio por elas.

Se fosse dado às almas do purgatório purificar-se pela contrição, num instante elas quitariam a dívida inteira, tão ardente seria a impetuosidade de sua contrição. Pois elas vêem claramente a gravidade desse impedimento que as retém de se unir a Deus, seu fim e seu amor.

Não tenha dúvida de que nesse pagamento elas não entram com um único tostão, tendo a justiça de Deus assim determinado. Isto vale da parte de Deus.

Da parte da alma, elas não têm mais nenhuma escolha pessoal, nenhuma introspecção, não querendo considerar nada que não seja a vontade de Deus; elas estão assim estabelecidas.

Se alguém neste mundo dá uma esmola por elas e assim a duração de sua pena é diminuída, elas não podem voltar-se para tomar conhecimento disso e se fixar nisso. Elas entregam tudo à exata balança da vontade divina, deixam Deus resolver tudo sozinho, de acordo com a Sua infinita bondade. Se lhes acontecesse de pensar nessas esmolas fora da vontade divina, seria uma introspecção, perderiam com isso a visão desse divino querer e isso seria para elas um inferno.



É por isso que essas almas permanecem apegadas a tudo o que Deus nelas realiza, quer seja prazer e contentamento, quer seja sofrimento. Elas já não podem se ensimesmar, pois estão totalmente transformadas na vontade de Deus e contentes com o que Ele decide em sua infinita santidade.


16. Essas almas querem ser plenamente purificadas.

Se uma alma fosse apresentada ao olhar divino ainda tendo algo a purificar, seria fazer-lhe uma grande injúria, seria para ela um tormento pior do que dez purgatórios.

A razão disso é que isso seria algo intolerável para a pura bondade e a soberana justiça de Deus. Por seu lado, a alma veria que  ainda não satisfez plenamente a Deus. Se faltasse só um mínimo de purificação, também seria para ela algo intolerável. Para retirar esse mínimo de ferrugem, ela passaria por mil infernos (supondo que lhe fosse dado escolher) de preferência a se ver ante a presença divina sem estar totalmente purificada.


17. Exortação e censuras aos vivos.

Esclarecida sobre todas estas coisas à luz divina, essa alma abençoada dizia:

Tenho vontade de gritar tão forte que na terra todos os homens ficassem espantados.

Eu lhes diria: Infelizes, por que se deixam cegar a esse ponto pelo mundo? Vocês não se preocupam em se preparar para essa necessidade tão premente em que se encontrarão no momento da morte!

Todos vocês se abrigam sob a esperança da misericórdia divina. Ela é tão grande, dizem vocês. Mas não vêem que essa bondade de Deus se voltará para a condenação de vocês, pois é contra a vontade de um tão bom senhor que vocês terão agido.

Sua bondade deveria, ao contrário, forçar vocês a fazerem plenamente a Sua vontade, e não levar vocês à presunção de fazer o mal.

Sua justiça não pode ser frustrada, de qualquer modo é preciso que ela seja plenamente satisfeita.

Não se encoraje pensando: eu me confessarei, conseguirei depois a indulgência plena, ficarei de uma só vez purificado de todos os meus pecados, e assim serei salvo.



Tome cuidado que a confissão e a contrição, necessárias para a indulgência plena, são muito difíceis de realizar. Se tivesse consciência disso, você tremeria de terror; estaria mais seguro de não tê-la do que de tê-la.


18.  No purgatório, as almas sofrem de bom grado e na alegria.

No purgatório, vejo as almas sofrerem com a visão de duas operações.

A primeira é que sofrem de muito bom grado suas penas. Percebem que Deus lhes faz uma grande misericórdia, considerando o castigo que mereceram, sabendo também a que ponto ele lhes é necessário. Se a bondade divina não tivesse temperado sua justiça com a misericórdia (pagando por elas com o precioso sangue de Jesus Cristo) um único pecado mereceria mil infernos eternos.

Assim suportam de tão bom grado suas penas que dela não gostariam de tirar um único quilate. Sabem que mereceram essas penas com toda justiça, e que foram perfeitamente pagas. Por conseguinte, não se queixam mais de Deus (quanto à vontade ) do que se estivessem na vida eterna.

A outra operação é um contentamento que sentem ao ver como  Deus age para com elas, com quanto amor e quanta misericórdia.

Deus imprime nelas essas duas visões instantaneamente. Uma vez que estão em estado de graça, elas captam e compreendem na medida de sua capacidade. Sentem com isso uma alegria imensa, que não mais lhes faltará; ao contrário, irá crescendo cada vez mais, à medida que se aproximarem mais de Deus.

Essas almas não vêem isso em si mesmas nem por si mesmas nem como algo que lhes pertença, mas só em Deus.

Elas se ocupam intensamente dEle, muito mais do que de suas penas, consideram estas últimas como nada em comparação a Ele.

A menor visão (17) que pudermos ter de Deus ultrapassa toda dor e toda alegria que o homem possa ter, mas sem lhes retirar uma palha nem de alegria nem de dor.


(17) Vista (visão) não significa a visão beatífica, mas toda luz sobrenatural e intelectual dada à alma quer nesta vida, quer no purgatório. Desde a conversão, Catarina a recebeu em abundância e num grau eminente de clareza e evidência.



19. A santa conclui sua exposição sobre as almas do Purgatório,  atribuindo-lhes o que sente na alma.



Esta forma de purificação que vejo aplicada às almas do purgatório, eu a sinto em meu espírito, principalmente de dois anos para cá. (18) A cada dia a sinto e a vejo mais claramente.

Minha alma, pelo que vejo, está neste corpo como num purgatório semelhante em tudo ao purgatório de verdade, mas na medida reduzida que o corpo pode suportar, para evitar que ele morra. Isso porém vai aos poucos se agravando, até que por fim ocorra a morte.

Vejo o espírito que se torna estranho a todas as coisas, mesmo de ordem espiritual, onde poderia encontrar algum alimento, como alegria, prazer, consolo. Não está em condições de tomar gosto pelo que quer que seja, temporal ou espiritual, nem pela vontade, nem pelo entendimento, nem pela memória. Para mim tornou-se impossível dizer: tenho mais prazer com isto do que com aquilo.


(18) É pena que essa nota cronológica seja tão imprecisa. Podemos porém situar essa declaração de Catarina por volta de 1500. Isto é confirmado pelo ministério de Marabotto junto a ela, a partir de cerca de 1498, requerido em boa parte pelos escrúpulos que a atormentavam e formam um elemento de seu purgatório. O purgatório durou muito mais de dois anos: começara mais de dois anos antes dessa declaração e se prolongou talvez até a morte.

                                                             
Meu interior está cercado. Foi pouco a pouco despojado de tudo que  refrescava sua vida espiritual e corporal. Toda vez que uma dessas coisas lhe é retirada, ele reconhece que ela era capaz de lhe dar alimento e reconforto. Assim que o espírito toma consciência disso, passa a odiá-las e abominá-las e elas partem sem nenhum remédio. A razão disso é que o espírito traz em si o instinto de se livrar de tudo que possa obstar à sua perfeição. Empenha-se nisso a ponto de quase se deixar ir ao inferno para alcançar seu objetivo.

Vai rejeitando tudo de que o homem interior poderia nutrir-se, ataca-o de maneira tão sutil que a mínima palhinha de imperfeição não pode passar sem que se dê conta e se horrorize com ela.

Quanto à parte exterior, uma vez que o espírito não tem mais correspondência com ela, também é duramente cercada; torna-se impossível para ela refrescar-se de acordo com seu instinto humano.

O único apoio que lhe resta é Deus. É Ele que opera tudo isso por amor e com grande misericórdia, para satisfazer sua justiça.



Essa visão dá ao espírito grande paz e contentamento. Mas esse contentamento não diminui em nada o sofrimento nem a compressão sofrida. Jamais o sofrimento poderia tornar-se a tal ponto cruel que ele possa desejar libertar-se do que Deus dispôs a seu respeito. Não sai de sua prisão, nem tenta sair, enquanto Deus não tiver nele realizado todo o necessário. O que me deixa contente é que Deus fique satisfeito. Para mim não haveria pior sofrimento do que me afastar dos desígnios de Deus sobre mim, tanta justiça e misericórdia neles vejo.

Tudo o que acaba de ser dito eu vejo, eu toco, mas não consigo encontrar expressões satisfatórias para dizê-lo como gostaria. O que eu disse a esse respeito, sinto acontecer em mim espiritualmente e é por isso que o disse.

A prisão em que me vejo é o mundo; a corrente é o corpo. A alma iluminada pela graça, é ela que sabe da importância de ser impedida ou atrasada de alcançar o seu fim, por qualquer impedimento que seja. Isso lhe causa uma dor extrema, pois sua sensibilidade é aguçada.

Além disso, essa alma recebe de Deus certa dignidade que a torna semelhante a Deus mesmo. Ele faz dela uma mesma coisa com Ele, tornando-a partícipe de sua bondade. E como é impossível que alguma dor atinja a Deus, o mesmo ocorre com as almas que dEle se aproximam. Quanto mais se aproximam, mais também elas recebem do que é próprio da divindade.

Por conseguinte, o atraso que atinge a alma causa-lhe um sofrimento intolerável. Esse sofrimento e esse atraso tornam-na dessemelhante dessas propriedades que tinha por natureza (19) e a graça lhe mostra; ela é impedida de alcançá-la, mesmo sendo apta, e isso lhe causa um sofrimento enorme, proporcional à estima que tem por Deus. Quanto melhor O conhece, mais O estima; quanto mais se livra do pecado, melhor O conhece. Também à medida que o impedimento se lhe torna mais terrível, mais a alma se recolhe toda em Deus e nada a impede de conhecê-Lo sem nenhum erro.

O homem que está pronto para se deixar matar antes que ofender a Deus sente a morte e experimenta toda a sua dor. Mas no zelo que lhe dá a luz divina, coloca a honra de Deus acima da morte. Assim a alma que conhece os desígnios de Deus lhes dá mais importância do que a toda tortura interior ou exterior, por maior que seja, pois Deus que nela opera essas coisas ultrapassa tudo o que podemos sentir ou imaginar.



A ocupação, por pequena que seja, que Deus dá de si mesmo a uma alma absorve-a nEle a ponto de não poder levar em conta mais nada. Assim, ela perde toda introspecção, não vê mais nada em si mesma, nem dano nem dor, não fala disso, nada mais sabe sobre isso. Durante um só instante ela tem conhecimento disso, como foi dito, no momento em que sai desta vida.

Finalmente, tiremos esta conclusão: Deus faz o homem perder tudo o que é do homem, e o purgatório o purifica.


(19) Propriedade não  tem aqui o sentido moral e habitual de ensimesmamento, mas sua acepção filosófica e ontológica de aptidão essencial. Trata-se precisamente dessa aptidão e tendência a se unir a Ele que Deus colocou na alma ao criá-la, como disse muitas vezes Catarina.



Termina o tratado do purgatório




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