TRATADO DO PURGATÓRIO
Tradução :
Roberto
Cedido
gentilmente pelo tradutor ao site Exsurge Domini www.exsurgedomini.kit.net
e ou www.formacaocatolica.kit.net
NOTA PRELIMINAR
Esta é a parte mais conhecida e mais difundida do Corpus catherinianum. Foi elogiada por teólogos, reeditada muitas
vezes e traduzida à parte do restante. Se Lutero a tivesse conhecido, talvez
opusesse menos objeções ao dogma do purgatório.
Pouco lhe
convém o título que os primeiros editores lhe deram e que a tradição conservou.
O opúsculo não tem de modo algum o porte de um tratado. Posto isso,
apresentam-se duas questões.
1. AUTENTICIDADE
Alguns a
contestaram ou questionaram. Talvez
baste explicitar os termos para que todos se ponham de acordo.
Santa Catarina
de Gênova nada escreveu do próprio punho. Terá ditado a exposição metódica de
uma doutrina? Isso tampouco. Neste
sentido, não existe um Tratado do Purgatório.
Mas Catarina,
no compasso de seus impulsos interiores, sem nenhum plano prestabelecido,
confiava a seus íntimos algo de suas experiências místicas. Demorava-se em
especial nas provações purificantes por que passou na última etapa da vida. Nelas via uma antecipação e o análogo nesta
vida do purgatório do além. Seus íntimos punham por escrito, da melhor forma
que podiam, suas declarações, estas entre outras. Ao reunirem suas anotações
com vistas a uma biografia, empenharam-se em
agrupar o que dizia respeito à doutrina do purgatório.
Já antes de
1520, na primeira redação da Vita,
esse trabalho foi terminado em sua forma definitiva. Constituía o capítulo XLI.
Após um
preâmbulo de algumas linhas, o capítulo começava com esta explicitação : «
Dizia ela ... »
A edição de
1551 reproduziu essa redação quase sem modificá-la em seu texto. Para
comodidade do leitor, os editores deslocaram esse trecho. Colocaram-no após a Vita e com um título especial.
Este tratado
tem inúmeras ligações com a Vita.
Encontramos nesta última, já no texto de 1520, alusões e menções a essa
doutrina, sempre em relação com as experiências da santa. Em suma, o purgatório
não pode ser separado da Vita, não é
nem mais nem menos autêntico que o todo de que faz parte.
2. APRESENTAÇÃO
Tanto na Vita de 1520 quanto
na edição de 1551, o capítulo ou tratado do purgatório é apresentado em bloco,
sem divisões nem subtítulos.
As edições
seguintes introduziram uma divisão em dezessete capítulos. Em 1929, Valeriano
da Finalmaria, capuchinho lígure, publicou uma nova edição, estabelecida
diretamente sobre a edição prínceps de 1551. Dividiu-a em dezessete seções
numeradas, sem contar o prólogo, e lhes deu novos sumários.
A tradução
abaixo segue o texto e as divisões do Pe. Valeriano. Como os títulos não
pertencem ao texto de 1551, aparecerão em negrito.
TRATADO DO PURGATÓRIO
DA BEM-AVENTURADA SENHORA
CATARINETA ADORNA
De como, em
comparação com o fogo divino que sentia dentro de si mesma, ela compreendia o
que era o purgatório, e de como ali as almas
se acham contentes e sofredoras.
Esta santa alma
ainda em sua carne se viu estabelecida no purgatório do ardente amor de Deus.
Ele a queimava toda e a purificava do que ela tinha de purificar, e assim, ao
partir desta vida, ela pôde ser apresentada ao olhar de Deus, seu doce
amor. Por meio desse amor ardente, ela
compreendia em si mesma em que estado se encontram no purgatório as almas dos
fiéis, para purificar todo tipo de ferrugem e de mancha do pecado não ainda
apagado durante esta vida.
Ela mesma, instalada no purgatório do divino fogo de amor, mantinha-se
unida a seu divino amor, satisfeita com tudo o que Ele nela operava;
compreendendo que tal se passava com as
almas que estão no purgatório, dizia ela (1) :
(1) Em sua exposição, a santa vai e
volta, e sem avisar, do «purgatório» por ela já padecido ao de após a morte. O
leitor será prevenido a respeito, quer pelos sumários, que por vezes foi
preciso modificar para isso, quer por notas de rodapé.
1. Perfeita conformidade das almas do Purgatório
com a vontade de Deus.
As almas que
estão no purgatório, pelo que creio compreender, não podem ter outra escolha do
que estar nesse lugar, pois essa é a vontade de Deus, que em sua justiça assim
o decidiu. Tampouco podem voltar-se para si mesmas. Não podem dizer: cometi
tais pecados e é por causa deles que mereço estar aqui. Não lhes é possível
dizer: queria não ter cometido tais pecados, pois assim iria imediatamente ao
paraíso. Também não : aquele sairá daqui antes de mim. Nem dizer: sairei antes dele.
(2)
São incapazes de ter de si mesmas ou dos outros
alguma lembrança, nem no bem nem no mal, que possa aumentar seu sofrimento.
Sentem, ao contrário, tal contentamento por estarem na condição querida por
Deus e por Deus nelas realizar tudo o que quer, como quer, que não podem pensar
em si mesmas nem sentir por isso nenhum aumento de dor.
Vêem só uma
coisa, a bondade divina que nelas trabalha, essa misericórdia que se exerce
sobre o homem para trazê-lo de volta a Deus. Por conseguinte, nem o bem nem o
mal que lhes aconteça podem atrair seu olhar.
(2) As almas do
purgatório, totalmente entregues ao amor, não têm mais nenhuma espécie de
introspecção, são incapazes de dizer eu. Catarina de Gênova chegara a essa
total abnegação de si mesma já em vida, como declara diversas vezes.
Se essas almas
pudessem tomar consciência disso, não mais estariam na pura caridade.
Tampouco podem
considerar que estão nessas aflições por causa de seus pecados, esta idéia não
lhes passa pela cabeça. Isso seria, de fato, uma imperfeição em ato (3), algo
que não pode existir nesse lugar onde é impossível cometer um pecado.
Porque estão no
purgatório, essa causa que nelas está, só lhes é dado vê-la uma só vez, no
momento em que saem desta vida, e em seguida não a vêem nunca mais. Caso
contrário, esse olhar seria uma introspecção.
Estando pois estabelecidas na caridade e dela não mais podendo
desviar-se por um ato defeituoso, tornam-se incapazes de querer algo, de
desejar algo, fora o puro querer da pura caridade. Colocadas nesse fogo
purificante, elas ali estão na ordem querida por Deus. Essa disposição divina é
puro amor, elas não podem desviar-se dele em nada, porque são incapazes de
cometer pecado, assim como de fazer um ato meritório.
(3) Porque
seria uma introspecção, um ato de amor-próprio, como a santa logo dirá.
Observemos como
Catarina apresenta o « juízo particular », em sua nua simplicidade, bem
distante das figuras e das imaginações: é um olhar da alma sobre si mesma à luz
invisível de Deus (cuja visão ela não tem), ela se vê em sua verdade e se
julga.
2. Alegria das almas do Purgatório. Sua crescente visão de Deus. A razão
da ferrugem.
Não creio que possa haver contentamento comparável ao de uma alma do
purgatório, salvo o dos santos no paraíso. A cada dia esse contentamento
aumenta pela ação de Deus nessas almas, ação que vai crescendo conforme vai
consumindo-se o que impede essa ação divina. Esse impecilho é a ferrugem do
pecado. (4) O fogo vai consumindo progressivamente essa ferrugem e assim a alma
se abre cada vez mais ao influxo divino.
Da mesma forma,
um objeto que houvesse sido encoberto não pode corresponder ao brilho do sol,
não porque o sol seja insuficiente, ele que continua a brilhar, mas pelo
impecilho daquilo que recobre o objeto. Se vier a se consumir o obstáculo que o
tolda, o objeto descobrir-se-á à ação do sol; ele a sofrerá cada vez mais, à
medida que o obstáculo diminuir.
Assim a ferrugem, ou seja, o pecado (5)
é o que recobre a alma. No purgatório, essa ferrugem é consumída pelo fogo.
Quanto mais se consome, mais também a alma se expõe ao verdadeiro sol, a Deus.
Sua alegria aumenta à medida que a ferrugem desaparece e que a alma se expõe ao
raio divino. Assim, uma cresce e a outra diminui, até que o tempo seja
consumado. Não é o sofrimento que diminui, mas unicamente o tempo de
permanência nessa aflição.
(4) A ferrugem
não é um resto de pecado, uma disposição má da vontade que fosse o efeito na
alma dos pecados cometidos durante a vida terrestre: é uma sujeira da alma,
exterior à sua vontade, uma falta de perfeição consecutiva aos pecados de
antes, de que a vontade se desligou totalmente no momento da morte.
(5) Erro de
leitura da edição. Deve-se ler: a ferrugem do pecado, conforme ao que é dito
mais acima.
Quanto à
vontade, essas almas jamais podem dizer que essas aflições sejam aflições, tão
satisfeitas estão com as disposições divinas a que sua vontade está unida por
pura caridade.
3. Sofrimentos das almas do Purgatório.
A separação de Deus é sua maior dor.
Por outro lado,
a dor que elas sofrem é tão extrema que não há língua que possa exprimi-la nem
inteligência que possa captar a menor fagulha dela, se Deus não lha desvelar
por uma graça toda especial. Essa fagulha, Deus concedeu a esta alma (6) a
graça de lha mostrar, mas não posso exprimi-la pela língua. Esse conhecimento
que Deus me fez ver jamais saiu de meu espírito. Dele direi o que puder e
compreenderão aqueles a que o Senhor se dignar abrir o entendimento.
A fonte de
todos os sofrimentos é o pecado, quer original, quer atual. Deus criou a alma totalmente pura e simples, sem
nenhuma mancha de pecado e com um instinto beatífico que a leva a Ele.
Desse instinto,
o pecado original em que se encontra a afasta. O pecado atual, quando se soma a
ela, dele a afasta ainda mais. Quanto mais ela se distancia dele, pior ela se
faz, pois Deus se afina cada vez menos com ela.
(6) «Esta alma»
é Catarina de Gênova, evitando nomear-se a si mesma, como São Paulo ao falar de
suas visões ; « Conheço um homem...» (2 Cor.,12 ,2).
Tudo o que pode
haver de bom nas criaturas só existe pela comunicação que Deus disso faz. Às
criaturas não racionais, Deus o comunica segundo seus desígnios e jamais lhes
falta.
Com a criatura
racional, com a alma, ele corresponde mais ou menos na medida em que a vê
purificada do impecilho do pecado. Quando existe uma alma que volte à pureza
primeira de sua criação, o instinto de felicidade nela se revela e
imediatamente cresce com tal veemência, tal ardor de caridade arrastando-a para
seu fim último, que para ela é algo insuportável estar separada dele. Quanto
mais tem consciência disso, mais extremo é seu tormento.
4. Diferença entre os condenados e as almas do purgatório.
As almas que
estão no purgatório encontram-se sem a culpa do pecado. (7) Por conseguinte,
não há obstáculo entre Deus e elas, afora esse tormento que as retém e que
consiste no fato de seu instinto beatífico não ter atingido a perfeição plena.
Vendo com toda
certeza o quanto importa o menor impecilho, vendo que a justiça exige que sua atração
seja retardada, nasce-lhes no coração um fogo de extrema violência, semelhante
ao do inferno.
(7) Intuição
profunda de Catarina. Na morte, todo o sensível desaparece, todo o transitório
se desvanece. A alma instala-se no absoluto. No além não há mais pecado venial.
É a recusa ou o dom, ambos totais e definitivos. Na alma que está no purgatório
reina a caridade divina sem mistura de pecado. Catarina volta a tratar disto
mais adiante.
Há a diferença
do pecado que torna má a vontade dos condenados do inferno; a estes Deus não
comunica sua bondade. Permanecem nessa malícia desesperada, oposta à vontade de
Deus.
Vemos com isso
que essa oposição mesma da vontade má à vontade de Deus é o que constitui o
pecado. Como a vontade se obstina no mal, o pecado também se conserva. Os do
inferno partiram desta vida com a vontade má. Assim, seu pecado não é remido e
não pode sê-lo, pois não podem mais mudar de vontade, uma vez que partiram
desta vida assim dispostos. Nessa passagem, a alma instala-se definitivamente
no bem ou no mal, ali se encontrando por sua vontade deliberada, conforme o que
está escrito: «Ali onde te encontrarei,
ou seja, no momento da morte, com essa vontade ou de pecado ou de rejeição e de
arrependimento do pecado, ali te julgarei.» (8)
Esse julgamento
é sem remissão, pois após a morte a liberdade do livre querer já não está
sujeita à mudança. Ela permanece congelada na disposição em que se achava no
momento da morte.
Os do inferno,
por terem-se achado nesse momento com a vontade de pecar, trazem consigo a
culpa e a pena. Aquela é infinita; esta não é tão grave quanto mereceriam, mas
a carregarão sem fim.
Os do purgatório, ao contrário, têm apenas a pena,
já que o pecado foi apagado no momento da morte, pois estavam contritos de seus
erros e se arrependiam de ter ofendido a bondade de Deus. Assim, sua pena terá
fim, ela vai diminuindo sem cessar ao longo do tempo, como ficou dito. (9)
(8) Este texto
não está nas Escrituras santas. É uma palavra de Cristo relatada por São
Justino e por outros dos primeiros Padres.
(9) Segundo
Catarina, a pena diminui, não em intensidade, mas só em duração, à medida que
se aproxima a libertação.
5. Deus mostra sua bondade até para com os
condenados.
Esse castigo
dos condenados não é infinito em quantidade. A razão disso é que a doce bondade
divina estende o raio de sua misericórdia até o inferno.
Com efeito, o
homem falecido em estado de pecado mortal merece um castigo infinito e por um
tempo infinito. Mas a misericórdia de Deus dispôs que só o tempo fosse sem fim,
e as penas limitadas em quantidade. Em toda justiça, poderia infligir-lhes uma
pena maior.
Oh! que perigo
o pecado cometido por mau querer! É com grande dificuldade que o homem dele se
arrepende, e enquanto dele não se arrepende, o pecado permanece e esse pecado
persiste enquanto o homem permanece na vontade do pecado que cometeu ou na
vontade de cometê-lo.
6. Purificados do pecado, é com alegria que as almas do Purgatório cumprem sua pena.
Mas as almas do
purgatório mantêm sua vontade em total conformidade com a de Deus. Por
conseguinte, Deus se harmoniza com elas em sua bondade e elas permanecem
contentes (quanto à vontade) e purificadas da culpa do pecado original e do
pecado atual.
Essas almas
voltam a ser tão puras como quando Deus as criou. Quando saem desta vida contritas de todos os pecados
que cometeram, tendo-os confessado e animadas da vontade de não mais
cometê-los, Deus as absolve imeditamente da culpa e nelas só resta a ferrugem
do pecado. Em seguida, elas se purificam dessa ferrugem no fogo, pelo
sofrimento.
Assim purificadas de toda
culpa e unidas a Deus pela vontade, elas vêem Deus claramente, segundo o grau
de conhecimento que Ele lhes concede; (10) também vêem o grande valor que há em
desfrutar de Deus e que as almas são criadas exatamente para isso.
(10) Não se
trata da visão face a face reservada ao céu, mas sim de um conhecimento mais
claro que na terra, pois não há mais paixões nem percepções ou recordações
sensíveis que prejudiquem sua nitidez.
7. Com que violento amor as almas do Purgatório aspiram a
desfrutar de Deus. Exemplo do pão e do esfomeado.
Além disso,
elas sentem uma conformidade tão unificante com Deus, e essa conformidade as
empurra para Ele com uma força tão grande, pelo instinto natural que existe
entre Deus e a alma, (11) que não podemos apresentar nenhum raciocínio, nenhuma
comparação, nenhum exemplo que o possa explicar suficientemente no grau em
que a alma o sente em sua operação nela
e por sua experiência íntima. Apresentarei porém um exemplo disso que me vem à
mente.
Suponhamos que
só houvesse no mundo inteiro um único pão para matar a fome de todas as
criaturas; suponhamos também que só de ver esse pão os homens se saciassem.
Dado que o
homem, a menos que esteja doente, tem o
instinto natural de comer, se passasse a
não mais comer, mesmo sendo preservado de doenças e da morte, sua fome
cresceria sem parar, pois seu instinto de comer nunca diminuiria.
Sabe que só
esse pão é capaz de saciá-lo; se não puder obtê-lo, sua fome não passará, ele
permanecerá num tormento intolerável. Quanto mais dele se aproximar sem chegar,
porém, a vê-lo, mais também aumentará o desejo natural que seu instinto
concentra todo no pão em que se acha todo contentamento.
(11) Idéia
enunciada mais de uma vez por Catarina. Há entre Deus e suas criaturas
espirituais uma conformidade de natureza e sobrenatural que as atrai para Ele,
se elas não o obstarem pelo pecado. Lembramo-nos de Sto. Agostinho : «Tu nos
fizeste para ti, Senhor... »
Se soubesse com
certeza que nunca lhe seria dado ver esse pão, nesse momento se realizaria o
inferno para ele; estaria no estado das almas condenadas que são privadas de
toda esperança de um dia chegar a ver o pão que é Deus, seu verdadeiro
Salvador.
Mas as almas do purgatório têm a esperança de contemplar o pão e de com
ele se saciarem plenamente. Por conseguinte, sofrem a fome e permanecem em seu
tormento enquanto são impedidas de se
saciar com esse pão, Jesus Cristo, verdadeiro Deus Salvador, nosso Amor.
8. O Inferno e o Purgatório mostram a admirável sabedoria de Deus.
Assim como o
espírito limpo e purificado não encontra nenhum lugar de repouso senão Deus
mesmo, pois foi criado com esse fim, assim também a alma pecadora só encontra
lugar no inferno, pois Deus lho destinou para seu fim.
É por isso que
no mesmo momento em que o espírito é separado do corpo, a alma dirige-se ao
lugar que lhe é destinado, sem outro guia além da natureza mesma de seu pecado,
quando a alma se separa do corpo em estado de pecado mortal.
Se a alma não encontrasse nesse
mesmo momento esse lugar de destino que procede da justiça divina, ela estaria
num inferno pior que o próprio inferno. Isso porque a alma se
veria fora dessa disposição divina que não deixa de ter uma parte de
misericórdia, pois a pena infligida não é tão grande quanto ela merece. Por isso a alma, não encontrando nenhum lugar
que lhe convenha mais nem lhe seja menos doloroso, pois Deus assim o dispôs,
lança-se por si mesma no inferno, pois ali é seu lugar.
O mesmo se pode
dizer do purgatório de que falamos. Separada do corpo, a alma que não se
encontra nesse estado de limpeza em que Deus a criou, vendo em si mesma o
obstáculo que a retém e sabendo que só pode ser elevada por meio do purgatório,
ela nele se lança imediatamente e de bom grado.
Se não
descobrisse esse meio disposto por Deus para livrá-la desse impedimento,
imediatamente se formaria nela um inferno pior que o purgatório, pois ela se
veria impedida de alcançar seu fim, que é Deus. Isso é para ela de tal
importância que em comparação o purgatório é como se fosse nada, embora, como
foi dito, o purgatório seja semelhante ao inferno. Mas é comparativamente que
ele é como nada.
9. Necessidade do purgatório.
Acrescento
também isto que vejo. Da parte de Deus, o paraíso está aberto, nele entra quem
quiser. Pois Deus é todo misericórdia, permanece voltado para nós, de braços
abertos para nos receber em sua glória. (12)
(12) Jesus
disse: «Aquele que vem a mim eu não o rejeitarei» (João, 6,37).
Mas vejo por outro lado que essa divina essência é de tal pureza e
limpeza, para além de tudo o que se possa imaginar, que a alma que tiver em si
uma imperfeição tão mínima quanto uma minúscula palhinha, antes se lançaria em
mil infernos a se ver com essa mancha na presença da majestade divina.
Assim, vendo
que o purgatório foi feito para lhe tirar essas manchas, ela nele se lança. Vê
que é uma grande misericórdia para ela esse meio de superar esse impedimento.
10. Como o purgatório é algo terrível.
A gravidade do purgatório, nem a língua pode explicar nem o espírito
pode apreender. Só vejo isto : que ali os tormentos se igualam aos do inferno.
Vejo porém que a alma que descobre a menor mancha de imperfeição o recebe, como
foi dito, como um favor que lhe é feito. Em certo sentido, ela o considera como
nada em comparação a essa mancha que retém o seu amor.
Vejo também que
o tormento das almas do purgatório consiste bem mais em verem nelas mesmas algo
que desagrada a Deus e que elas contraíram voluntariamente ao agirem contra uma
tão grande bondade, do que em algum outro tormento por que passem no
purgatório. Pois estando na graça divina, elas vêem a realidade e a importância
desse impedimento que não lhes permite aproximar-se de Deus.
O que é tudo
isso que acabamos de dizer em comparação com as evidências que me são dadas em
minha mente (na medida em que as pude conceber nesta vida)? Diante de tais
extremos, toda visão, toda palavra, todo sentimento, toda imaginação, toda
justiça, toda verdade, tudo isso para mim não passa de ilusões e coisa de nada.
Fico confusa,
por não poder encontrar expressões mais fortes.
11. O amor de Deus que atrai as almas santas e o impedimento que elas
encontram no pecado são as causas dos tormentos do purgatório.
Vejo entre Deus
e a alma uma incrível conformidade. Quando Ele a vê nessa pureza em que Sua
majestade a criou, Ele lhe dá certa força de atração feita de amor ardente,
capaz de reduzi-la a nada, embora seja imortal.
Ele a coloca
num estado de tão perfeita transformação nEle, seu Deus, que ela se vê não
sendo nada mais do que Deus. Ele a atrai continuamente a Si, abraça-a, não a
deixa até que a tenha levado a esse ser divino de que ela procede, ou seja, a
essa pureza na qual a criou.
A alma se vê,
por uma visão interior, assim atraída por Deus com esse fogo de amor. Então,
sob o ardor desse amor ardente de seu doce Senhor e Deus que ela sente brotar
em seu espírito, ela se liqüefaz inteiramente.
À luz divina,
ela vê como Deus não pára um instante de atraí-la para Si, para conduzi-la à sua
perfeição total. Nisso Ele usa de uma atenção extrema, de uma solicitude
contínua; em tudo isso, Deus só age por puro amor. Mas ela mesma, por esse
obstáculo de pecado que nela subsiste, se vê impedida de se entregar a essa
divina atração, ou seja, a esse olhar unitivo que Deus lhe deu para que ela
seja atraída a Ele.
Ela vê também
quanto lhe é doloroso esse atraso que a impede de contemplar a divina luz.
Soma-se a isso
o instinto da alma impaciente de ser libertada desse impedimento, atraída que é
por esse olhar unitivo. Digo que tudo isso e a visão que as almas têm disso é o
que nelas gera a dor do purgatório.
Essa dor,
porém, por maior que seja, elas não levam em conta.
Elas se ocupam muito mais da oposição que têm à vontade de Deus. Elas O
vêem arder por elas com um amor extremo e puro. Esse amor, com seu olhar
unitivo, as puxa para Si com uma potência extrema e contínua, como se nada mais
tivesse a fazer.
Isso a tal
ponto que se a alma pudesse descobrir um outro purgatório mais forte do que
aquele em que se encontra, imediatamente se jogaria nele para se livrar mais
rápido desse impedimento. Tão violento é o amor
de conformidade entre Deus e a alma.
12. Como Deus purifica as almas : exemplo do
ouro no cadinho.
Desse divino
Amor, vejo jorrarem em direção à alma raios e chamas ardentes, tão penetrantes
e tão fortes que parecem capazes de reduzir a nada não só o corpo, mas a
própria alma, se fosse possível.
Esses raios
operam de duas maneiras: uma é de purificar, outra de aniquilar.
Vide o ouro. À
medida que é fundido, vai melhorando. É possível fundi-lo até nele se destruir
toda imperfeição.
Tal é o efeito
do fogo nas coisas materiais. Com a diferença de que a alma não pode
aniquilar-se em Deus, mas unicamente em seu ser próprio. Quanto mais a
purificas, mais também ela se aniquila em si mesma e por fim é toda purificada
em Deus.
O ouro, quando
é purificado em vinte e quatro quilates, não se consome mais, seja qual for o
fogo em que seja colocado. Só o que nele pode ser consumido é a sua própria
imperfeição.
Assim opera na
alma o fogo divino. Deus a mantém no fogo até que toda imperfeição seja
consumida. Ele a leva à pureza total de vinte e quatro quilates, porém cada
alma segundo seu grau. (13) Quando estiver purificada, ela permanece inteiramente
em Deus, sem nada em si que lhe seja próprio, e seu ser é Deus.
Uma vez que Deus reconduziu a Si a alma assim purificada, esta então
perde a capacidade de poder sofrer mais, pois não lhe resta mais nada para
consumir. Se nesse estado de pureza ela fosse mantida no fogo, não sentiria
nenhum sofrimento com isso. Esse fogo nada mais seria do que o do divino amor
da vida eterna, sem nada de doloroso.
13. Como a alma vai, nesta vida, do pecado à pureza de amor. (14) Sabedoria
de Deus que lhe mantém escondidas suas imperfeições.
A alma foi
criada dotada de todas as boas disposições de que é capaz, para permitir-lhe
alcançar sua perfeição, com a condição de que viva como Deus manda, sem se
sujar de nenhuma mancha de pecado.
Ela porém se
contaminou com o pecado original, que a faz perder seus dons de graça. Ela
morreu, só pode ressuscitar por Deus. Quando renasce pelo batismo, resta-lhe a
inclinação ao mal; essa inclinação a conduz, se não resistir a ela, até o
pecado atual, pelo qual morre de novo.
(13) O
purgatório purifica a alma sem aumentar sua caridade nem seu mérito.
(14) Neste #
13, a santa resume seu próprio caminho espiritual.
Novamente, Deus
lhe devolve a vida. É uma graça totalmente particular que Ele lhe faz, pois ela
está suja e voltada para si mesma. Para a reconduzir a seu primeiro estado, tal
como Deus a criou, ela precisa dessas operações divinas, pois sem elas lhe
seria para sempre impossível voltar-se de novo para Deus.
Quando a alma
se põe a caminho para retornar a seu estado primitivo, tamanho é o ardor que a
insta a se transformar em Deus que esse é o seu purgatório. Ela não encara esse
purgatório como um purgatório, (15) mas esse instinto ardente e entravado
constitui seu purgatório.
Este último ato
de amor realiza sua obra sem que o homem participe. Há na alma tantas
imperfeições ocultas que ela se desesperaria se lhe fosse dado vê-las. Este
último estado consome todas elas.
Depois que
foram consumidas, Deus as descobre à alma para que ela reconheça a obra divina
nela realizada pelo fogo de amor. Foi ele que nela consumiu todas essas
imperfeições que devem sê-lo.
(15) Trata-se
aqui, diretamente, do « purgatório » padecido pela santa nesse período de sua
vida, mas isso tambem vale para o purgatório do além.
14. Condições para que um ato, nesta
vida, seja perfeito. Alegria e dor da alma do Purgatório.
Saiba disto: a
perfeição que o homem crê constatar em si para Deus não passa de defeito. De
fato, tudo o que o homem realiza como sendo perfeição, todo conhecimento, todo
sentimento, todo querer, toda lembrança, desde que não o faça remontar a Deus,
tudo isso o infecta e o suja.
Para que esses
atos sejam perfeitos, é necessário que sejam feitos em nós sem nós, sem que
sejamos o seu primeiro agente, e que a operação de Deus seja feita em Deus sem
que o homem seja sua causa primeira.
Só são
perfeitos os atos que Deus realiza e conclui em seu amor puro e limpo, sem
mérito de nossa parte. Eles penetram a alma tão profundamente e a tal ponto a
incendiam que o corpo em que ela se acha se sente arder como se estivesse num
grande braseiro que não se extinguirá antes da morte. (16)
É verdade, como
o vejo, que o amor que vem de Deus e se reflete na alma nela causa um
contentamento inexprimível; mas esse contentamento não diminui no mínimo que
seja o sofrimento das almas do purgatório.
(16) A santa
passa, ao mencionar a morte, às almas do purgatório.
Portanto, é esse amor que se vê entravado que constitui o sofrimento
delas. Esse sofrimento é tanto maior quanto maior for a capacidade de amor e de
perfeição que Deus deu a cada uma.
Assim, as almas do purgatório sentem ao mesmo tempo uma alegria extrema
e um extremo sofrimento, sem que um seja obstáculo ao outro.
15. As almas do purgatório ainda não estão em
condições de poder ter méritos. Como sua vontade se dispõe em relação às boas
obras oferecidas neste mundo em sufrágio por elas.
Se fosse dado
às almas do purgatório purificar-se pela contrição, num instante elas quitariam
a dívida inteira, tão ardente seria a impetuosidade de sua contrição. Pois elas
vêem claramente a gravidade desse impedimento que as retém de se unir a Deus,
seu fim e seu amor.
Não tenha
dúvida de que nesse pagamento elas não entram com um único tostão, tendo a
justiça de Deus assim determinado. Isto vale da parte de Deus.
Da parte da alma, elas não têm mais nenhuma escolha pessoal, nenhuma
introspecção, não querendo considerar nada que não seja a vontade de Deus; elas
estão assim estabelecidas.
Se alguém neste
mundo dá uma esmola por elas e assim a duração de sua pena é diminuída, elas
não podem voltar-se para tomar conhecimento disso e se fixar nisso. Elas
entregam tudo à exata balança da vontade divina, deixam Deus resolver tudo
sozinho, de acordo com a Sua infinita bondade. Se lhes acontecesse de pensar nessas
esmolas fora da vontade divina, seria uma introspecção, perderiam com isso a
visão desse divino querer e isso seria para elas um inferno.
É por isso que
essas almas permanecem apegadas a tudo o que Deus nelas realiza, quer seja
prazer e contentamento, quer seja sofrimento. Elas já não podem se ensimesmar,
pois estão totalmente transformadas na vontade de Deus e contentes com o que
Ele decide em sua infinita santidade.
16. Essas almas querem ser plenamente purificadas.
Se uma alma fosse apresentada ao olhar divino ainda tendo algo a
purificar, seria fazer-lhe uma grande injúria, seria para ela um tormento pior
do que dez purgatórios.
A razão disso é
que isso seria algo intolerável para a pura bondade e a soberana justiça de
Deus. Por seu lado, a alma veria que
ainda não satisfez plenamente a Deus. Se faltasse só um mínimo de
purificação, também seria para ela algo intolerável. Para retirar esse mínimo
de ferrugem, ela passaria por mil infernos (supondo que lhe fosse dado
escolher) de preferência a se ver ante a presença divina sem estar totalmente
purificada.
17. Exortação e censuras aos vivos.
Esclarecida
sobre todas estas coisas à luz divina, essa alma abençoada dizia:
Tenho vontade
de gritar tão forte que na terra todos os homens ficassem espantados.
Eu lhes diria:
Infelizes, por que se deixam cegar a esse ponto pelo mundo? Vocês não se
preocupam em se preparar para essa necessidade tão premente em que se
encontrarão no momento da morte!
Todos vocês se
abrigam sob a esperança da misericórdia divina. Ela é tão grande, dizem vocês.
Mas não vêem que essa bondade de Deus se voltará para a condenação de vocês,
pois é contra a vontade de um tão bom senhor que vocês terão agido.
Sua bondade
deveria, ao contrário, forçar vocês a fazerem plenamente a Sua vontade, e não
levar vocês à presunção de fazer o mal.
Sua justiça não
pode ser frustrada, de qualquer modo é preciso que ela seja plenamente
satisfeita.
Não se encoraje
pensando: eu me confessarei, conseguirei depois a indulgência plena, ficarei de
uma só vez purificado de todos os meus pecados, e assim serei salvo.
Tome cuidado
que a confissão e a contrição, necessárias para a indulgência plena, são muito
difíceis de realizar. Se tivesse consciência disso, você tremeria de terror;
estaria mais seguro de não tê-la do que de tê-la.
18. No purgatório,
as almas sofrem de bom grado e na alegria.
No purgatório,
vejo as almas sofrerem com a visão de duas operações.
A primeira é
que sofrem de muito bom grado suas penas. Percebem que Deus lhes faz uma grande
misericórdia, considerando o castigo que mereceram, sabendo também a que ponto
ele lhes é necessário. Se a bondade divina não tivesse temperado sua justiça
com a misericórdia (pagando por elas com o precioso sangue de Jesus Cristo) um
único pecado mereceria mil infernos eternos.
Assim suportam
de tão bom grado suas penas que dela não gostariam de tirar um único quilate.
Sabem que mereceram essas penas com toda justiça, e que foram perfeitamente
pagas. Por conseguinte, não se queixam mais de Deus (quanto à vontade ) do que
se estivessem na vida eterna.
A outra
operação é um contentamento que sentem ao ver como Deus age para com elas, com quanto amor e
quanta misericórdia.
Deus imprime
nelas essas duas visões instantaneamente. Uma vez que estão em estado de graça,
elas captam e compreendem na medida de sua capacidade. Sentem com isso uma
alegria imensa, que não mais lhes faltará; ao contrário, irá crescendo cada vez
mais, à medida que se aproximarem mais de Deus.
Essas almas não
vêem isso em si mesmas nem por si mesmas nem como algo que lhes pertença, mas
só em Deus.
Elas se ocupam
intensamente dEle, muito mais do que de suas penas, consideram estas últimas
como nada em comparação a Ele.
A menor visão
(17) que pudermos ter de Deus ultrapassa toda dor e toda alegria que o homem
possa ter, mas sem lhes retirar uma palha nem de alegria nem de dor.
(17) Vista (visão) não significa a visão
beatífica, mas toda luz sobrenatural e intelectual dada à alma quer nesta vida,
quer no purgatório. Desde a conversão, Catarina a recebeu em abundância e num
grau eminente de clareza e evidência.
19. A santa conclui sua exposição sobre as almas do Purgatório, atribuindo-lhes o que sente na alma.
Esta forma de
purificação que vejo aplicada às almas do purgatório, eu a sinto em meu
espírito, principalmente de dois anos para cá. (18) A cada dia a sinto e a vejo
mais claramente.
Minha alma,
pelo que vejo, está neste corpo como num purgatório semelhante em tudo ao
purgatório de verdade, mas na medida reduzida que o corpo pode suportar, para
evitar que ele morra. Isso porém vai aos poucos se agravando, até que por fim
ocorra a morte.
Vejo o espírito
que se torna estranho a todas as coisas, mesmo de ordem espiritual, onde
poderia encontrar algum alimento, como alegria, prazer, consolo. Não está em
condições de tomar gosto pelo que quer que seja, temporal ou espiritual, nem
pela vontade, nem pelo entendimento, nem pela memória. Para mim tornou-se
impossível dizer: tenho mais prazer com isto do que com aquilo.
(18) É pena que
essa nota cronológica seja tão imprecisa. Podemos porém situar essa declaração
de Catarina por volta de 1500. Isto é confirmado pelo ministério de Marabotto
junto a ela, a partir de cerca de 1498, requerido em boa parte pelos escrúpulos
que a atormentavam e formam um elemento de seu purgatório. O purgatório durou
muito mais de dois anos: começara mais de dois anos antes dessa declaração e se
prolongou talvez até a morte.
Meu interior
está cercado. Foi pouco a pouco despojado de tudo que refrescava sua vida espiritual e corporal.
Toda vez que uma dessas coisas lhe é retirada, ele reconhece que ela era capaz
de lhe dar alimento e reconforto. Assim que o espírito toma consciência disso,
passa a odiá-las e abominá-las e elas partem sem nenhum remédio. A razão disso
é que o espírito traz em si o instinto de se livrar de tudo que possa obstar à
sua perfeição. Empenha-se nisso a ponto de quase se deixar ir ao inferno para
alcançar seu objetivo.
Vai rejeitando
tudo de que o homem interior poderia nutrir-se, ataca-o de maneira tão sutil
que a mínima palhinha de imperfeição não pode passar sem que se dê conta e se
horrorize com ela.
Quanto à parte
exterior, uma vez que o espírito não tem mais correspondência com ela, também é
duramente cercada; torna-se impossível para ela refrescar-se de acordo com seu
instinto humano.
O único apoio
que lhe resta é Deus. É Ele que opera tudo isso por amor e com grande
misericórdia, para satisfazer sua justiça.
Essa visão dá
ao espírito grande paz e contentamento. Mas esse contentamento não diminui em
nada o sofrimento nem a compressão sofrida. Jamais o sofrimento poderia
tornar-se a tal ponto cruel que ele possa desejar libertar-se do que Deus
dispôs a seu respeito. Não sai de sua prisão, nem tenta sair, enquanto Deus não
tiver nele realizado todo o necessário. O que me deixa contente é que Deus
fique satisfeito. Para mim não haveria pior sofrimento do que me afastar dos
desígnios de Deus sobre mim, tanta justiça e misericórdia neles vejo.
Tudo o que
acaba de ser dito eu vejo, eu toco, mas não consigo encontrar expressões
satisfatórias para dizê-lo como gostaria. O que eu disse a esse respeito, sinto
acontecer em mim espiritualmente e é por isso que o disse.
A prisão em que
me vejo é o mundo; a corrente é o corpo. A alma iluminada pela graça, é ela que
sabe da importância de ser impedida ou atrasada de alcançar o seu fim, por
qualquer impedimento que seja. Isso lhe causa uma dor extrema, pois sua
sensibilidade é aguçada.
Além disso,
essa alma recebe de Deus certa dignidade que a torna semelhante a Deus mesmo.
Ele faz dela uma mesma coisa com Ele, tornando-a partícipe de sua bondade. E
como é impossível que alguma dor atinja a Deus, o mesmo ocorre com as almas que
dEle se aproximam. Quanto mais se aproximam, mais também elas recebem do que é
próprio da divindade.
Por
conseguinte, o atraso que atinge a alma causa-lhe um sofrimento intolerável.
Esse sofrimento e esse atraso tornam-na dessemelhante dessas propriedades que
tinha por natureza (19) e a graça
lhe mostra; ela é impedida de alcançá-la, mesmo sendo apta, e isso lhe causa um
sofrimento enorme, proporcional à estima que tem por Deus. Quanto melhor O
conhece, mais O estima; quanto mais se livra do pecado, melhor O conhece.
Também à medida que o impedimento se lhe torna mais terrível, mais a alma se
recolhe toda em Deus e nada a impede de conhecê-Lo sem nenhum erro.
O homem que
está pronto para se deixar matar antes que ofender a Deus sente a morte e
experimenta toda a sua dor. Mas no zelo que lhe dá a luz divina, coloca a honra
de Deus acima da morte. Assim a alma que conhece os desígnios de Deus lhes dá
mais importância do que a toda tortura interior ou exterior, por maior que
seja, pois Deus que nela opera essas coisas ultrapassa tudo o que podemos
sentir ou imaginar.
A ocupação, por
pequena que seja, que Deus dá de si mesmo a uma alma absorve-a nEle a ponto de
não poder levar em conta mais nada. Assim, ela perde toda introspecção, não vê
mais nada em si mesma, nem dano nem dor, não fala disso, nada mais sabe sobre
isso. Durante um só instante ela tem conhecimento disso, como foi dito, no
momento em que sai desta vida.
Finalmente,
tiremos esta conclusão: Deus faz o homem perder tudo o que é do homem, e o
purgatório o purifica.
(19)
Propriedade não tem aqui o sentido moral
e habitual de ensimesmamento, mas sua acepção filosófica e ontológica de
aptidão essencial. Trata-se precisamente dessa aptidão e tendência a se unir a
Ele que Deus colocou na alma ao criá-la, como disse muitas vezes Catarina.
Termina o tratado do purgatório

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