Blog Alma Missionária

Blog Alma Missionaria

terça-feira, 17 de setembro de 2013


segunda-feira, 16 de setembro de 2013


A VIRGEM MARIA CONTRA SATANÁS


Pe. Gabriele Amorth

Por que é que Maria é tão poderosa contra o demônio? Por que é que o Maligno treme e foge diante da Virgem? Se até agora já expusemos os motivos doutrinais, é tempo de dizer alguma coisa mais concreta que manifeste a experiência de todos os exorcistas.

Começo precisamente pela apologia da Senhora, que o próprio demônio foi obrigado a fazer. Obrigado por Deus, falou melhor do que qualquer pregador.

Em 1823, em Ariano Irpino (Avelino, Itália), dois célebres pregadores dominicanos, os padres Cassiti e Pignataro, foram convidados a exorcizar um rapaz. Nessa época, discutia-se entre os teólogos sobre a verdade da Imaculada Conceição, que haveria de ser proclamada dogma de fé, trinta e um ano depois, em 1854. Pois bem, os dois frades impuseram ao demônio que demonstrasse que Maria era Imaculada, obrigando-o a fazê-lo através de um soneto: uma poesia de catorze versos hendecassílabos com rima própria obrigatória. Note-se que o endemoniado era um menino analfabeto de doze anos.

Imediatamente Satanás pronunciou estes versos:

Vera Mãe sou de um Deus que é Filho
e sou filha d'Ele, embora sua Mãe.
Ab eterno Ele nasceu e é meu Filho
no tempo nasci eu que sou a Mãe.
Ele é o meu Criador e é meu Filho;
eu sou sua criatura e sua Mãe.
Prodígio divino foi ser meu Filho
um Deus eterno, e me ter por Mãe.
O ser é quase comum entre Mãe e Filho
porque o ser do Filho teve a Mãe
e o ser da Mãe teve também o Filho.
Ora, se o ser do Filho foi também da Mãe
ou se dirá que foi manchado o Filho
ou sem mácula se há-de dizer a Mãe.

Pio IX comoveu-se quando, depois de ter proclamado o dogma da Imaculada Conceição, leu este soneto que lhe foi apresentado naquela ocasião

Há anos, um meu amigo oriundo de Brescia, padre Faustino Negrini, já falecido, enquanto exercia o ministério de exorcista no pequeno santuário de Stella, contou-me que obrigou o demônio a fazer a apologia de Nossa Senhora. Perguntou-lhe:

- Por que é que tens tanto medo quando nomeio a Virgem Maria?
- Porque é a criatura mais humilde de todas e eu sou o mais soberbo; é a mais obediente e eu sou a mais rebelde (a Deus); é a mais pura e eu sou o mais imundo - ouviu-o responder pela boca da endemoninhada.

Em 1991, quando exorcizava um endemoniado, lembrei-me deste episódio e repeti ao demônio as palavras ditas em honra de Maria e conjurei-o a que me respondesse, sem fazer a mais pálida idéia do que diria:

- A Virgem Imaculada foi elogiada por três virtudes. Agora, você vai me dizer qual é a quarta virtude que o faz ter tanto medo.
- É a única criatura que me pode vencer inteiramente, porque nunca foi tocada pela menor sombra do pecado.

Se é desta maneira que o demônio fala de Maria, que mais poderiam dizer os exorcistas? Limito-me à experiência que todos temos: palpamos a verdade de que Maria é realmente Medianeira de graças, porque é sempre Ela que obtém do Filho a libertação de alguém das garras do demônio. Quando se começa a exorcizar um endemoniado, um daqueles de quem o diabo se apossa realmente por dentro, somos insultados e gozados:

- Eu estou aqui muito bem... Nunca sairei daqui... Tu não podes nada contra mim... És muito fraco e estás a perder o teu tempo...

Mas, pouco a pouco, Maria vai entrando em campo e a música começa a mudar:

- É Ela quem quer... Conta Ela não posso nada... Diz-lhe que deixe de interceder por esta pessoa... Ela ama muito esta criatura... Bem, para mim acabou...

Também me aconteceu muitas vezes ser-me logo atirada à cara a intervenção da Senhora, desde o início do exorcismo:

- Eu estava aqui tão bem, mas foi Ela quem te mandou... Sei porque é que veio, porque foi Ela que quis... Se Ela não tivesse intervido, eu nunca te teria encontrado...

São Bernardo, no final do seu famoso Discurso do aqueduto, seguindo um fio de raciocínios estritamente teológicos, conclui com uma frase escultural: "Maria é toda a razão da minha esperança".

Aprendi esta frase quando era rapaz, enquanto esperava diante da porta da cela nº 5, em San Giovanni Rotondo; era a cela do Padre Pio. Depois, quis estudar o contexto desta expressão que, à primeira vista, poderia parecer simplesmente devocional. Saboreei a sua profundidade, a sua verdade e o encontro entre doutrina e experiência prática. Por isso, repito-a espontaneamente a quem está em dificuldades ou desespera, como acontece frequentemente a quem foi atingido por danos maléficos: "Maria é toda a razão da minha esperança".

D'Ela nos vem Jesus; e de Jesus todo o bem. Foi este o desígnio do Pai; um desígnio que não muda. Toda a graça chega até nós pelas mãos de Maria que obtém para nós aquela efusão de Espírito Santo que liberta, consola e alegra.

São Bernardo não hesita em exprimir estes conceitos com uma afirmação corajosa que marca o ponto mais alto do seu discurso e que inspirou a Dante aquela famosa oração à Virgem

"Veneramos Maria
com todo o ímpeto do nosso coração,
dos nossos afetos e dos nossos desejos.
Assim que Aquele que estabeleceu
que recebêssemos tudo
por intermédio de Maria."


É esta a experiência que, concretamente, todos os exorcistas experimentam sempre - [Pe. Gabriele Amorth, Novos Relatos de Um Exorcista]



É necessário reconhecer que infelizmente nos nossos dias, reflexões sobre temas direcionados a exorcismo, possessões demoníacas, demônios, anjos, Satanás, é algo que para algumas pessoas (principalmente cristãs) não merece muita atenção neste período pós-moderno. É preferível estudar qualquer outro tema, seja: social, filosófico, político, ético, físico, menos aquilo que foge do racional. Mas, refletir sobre temas sobrenaturais (pensam alguns) não é algo que merece a atenção de um cristão, deixemos isso para o esoterismo, eles sabem lidar muito bem com estes assuntos. Por conta desse desleixo de nós cristãos em relação à esses temas, busco refletir esta batalha entre a Virgem Maria e Satanás numa visão exegética, teológica e a nível da espiritualidade

A Igreja convida o Povo de Deus no mês de Maio a reforçar suas orações lembrando-se da mulher que marcou a história da humanidade com uma simples palavra que revolucionou sua vida: FAÇA-SE. Foi verdadeiramente um jogar-se ao desconhecido, pois ela não sabia o que Deus tinha planejado para ela. Não esqueçamos que Maria, a Mãe de Jesus, humana semelhante a nós, aprendeu o sentido da palavra faça-se no decorrer da sua existência, dia após dia, ou seja, aprendeu vivendo. Nesta mulher encontramos uma força que podemos dizer ser “anormal” em relação ao modo como ela enfrentava a vida, e que força era essa que ela tinha para vencer os obstáculos que tentavam destruir os planos de Deus? É possível resumir em uma palavra: GRAÇA. Era a graça divina que sustentava e dava forças e sabedoria para enfrentar aquele que se colocava como o inimigo de Deus e da Virgem Maria: Satanás e suas hordas demoníacas

Ao tratar sobre este tema (Virgem Maria e Satanás) é necessário recorrer a duas perícopes que tratam sobre este assunto narrando a luta de Maria contra Satanás. Podemos encontrar em duas passagens bíblicas: Gn 3, 15 e Ap 12. Em Gn 3, 15 Deus diz a serpente (Satanás): “Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. Esta interpretação anterior é da bíblia de Jerusalém, já na bíblia do Peregrino temos uma interpretação mais clara em relação ao termo ferirás: “esta ferirá tua cabeça quando tu ferires seu calcanhar”. Aqui não estamos lidando no campo da interpretação correta ou errada, mas, no campo do sentido da mensagem. Os termos “ferires seu calcanhar” estamos lidando aqui com o mal que a serpente lançou na humanidade após Eva escutar suas palavras. Sendo assim, Maria, a Nova Eva (título recebido já na patrística) pisará na cabeça de Satanás mostrando uma inversão de poderes, ou seja, é o humano pisando na cabeça de um anjo. Por isso que Satanás tem ódio da Mãe de Deus, primeiramente porque foi por meio dela que o Verbo se encarnou e segundo pela humilhação de perder a batalha para um ser humano que é ajudado por Deus. Isso mostra que quando a pessoa está do lado de Deus não deve temer nada, porque “ao teu lado cairão mil, e dez mil à tua direita, e a ti não alcançarão”( Sl 91, 7) porque Deus sempre está conosco

No livro do Apocalipse encontramos uma perícope muito interessante e que merece nossa atenção: Ap 12. É justamente nesta passagem onde é narrada uma verdadeira batalha entre a Virgem Maria e Satanás, São Miguel e Satanás. Mas, a nossa reflexão aqui será apenas na primeira parte do capítulo doze, ou seja, a batalha entre Maria e Satanás

Primeiramente devemos perceber que o texto começa narrando uma visão de São João que parte da terra para o céu: “Um sinal grandioso APARECEU NO CÉU” (Ap 12, 1) mostrando que o plano de fundo onde ocorre esta batalha é no céu. Mais adiante temos uma situação interessante colocada por São João. O ato de Maria gritar por causa das dores do parto e de estar atormentada (Cf. Ap 12, 2). Lembrando que Maria é Virgem antes, durante e após o nascimento do menino Jesus, Ele que nasceu de forma miraculosa, extra-ordinária e não em meio ao sangue (Cf. Jo 1, 13), como explicar essas dores do parto sentidas pela Virgem Maria narrada por São João?

O teólogo angélico (São Tomás de Aquino) já tinha alertado e corrigido séculos àqueles que acreditavam nesta hipótese de Maria ter sentido dores no parto. Esse tormento, essas dores está em relação ao ver a humanidade seguir os argumentos de Satanás assim como o mesmo fez os anjos o seguirem

O texto continua narrando sobre a mulher que está para dar a luz e a sua frente está um dragão pronto para devorá-lo. Este versículo busca mostrar a tentativa de Satanás (dragão) arriscar destruir Aquele que vai salvar a humanidade, o próprio Jesus Cristo. É a batalha entre ódio eterno e a Graça divina. O dragão tem suas características: “um grande Dragão, cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres e sobre as cabeças sete diademas” (Ap 12, 3). O diadema quer dizer que este dragão tem um grande poder, mas, não maior que o poder de Deus, o ato de ter sete cabeças pode ser a representação dos sete pecados capitais, segundo os escritos do século XVII da admirável Soror Maria de Jesus de Agreda (freira franciscana), onde afirmam que ela recebeu revelações sobre pecado dos demônios e acabou transformando em uma obra chamada A mística cidade de Deus. Assim ela interpreta essa perícope de Apocalipse 12, 3:

E levantou com furor sete cabeças, que foram sete legiões ou esquadrões, em que se dividiram todos os que lhe seguiram e caíram; e a cada principado ou congregação destas lhe deu sua cabeça, ordenando-lhe que pecassem e tomassem por sua conta incitar e mover aos sete pecados mortais, que comumente se chamam capitais, porque neles estão contidos os demais pecados e são como cabeças dos bandos que se levantam contra Deus. Estes são: soberba, inveja, avareza, ira, luxúria, gula e preguiça; que foram os sete diademas com que Lúcifer convertido em Dragão foi coroado. (Apud Svmma Daemoniaca, FORTEA, 2010, p. 129)

Podemos perceber que o Dragão não consegue matar a criança porque a mãe é protegida por Deus, mas ele (Satanás) não desistiu, e mesmo após ser expulso do céu agora ele tenta destruir o que pode estando na terra, isso por puro ódio. É por isso que Jesus sempre o chama de príncipe deste mundo. Mesmo a terra defendendo a mulher, Satanás muda o foco do seu plano de guerra: “enfurecido por causa da Mulher, o Dragão foi então guerrear contra o resto dos seus descendentes, os que observam os mandamentos de Deus e mantêm o testemunho de Jesus” (Ap 12, 17). Agora essa batalha espiritual entre homens e demônios acontece com cada ser humano a todo instante, lembremos que o demônio (ser espiritual) não dorme, ele fica vinte e quatro horas procurando um deixa nossa para ele adentrar em nossa vida e tentar nos afastar de Deus (Cf. 1Pd 5, 8)

Mas nessa batalha entre o humano e o anjo das Trevas, Maria, a Mãe de Jesus, é perceptível o sentido, a crença, a ação concreta do que é acreditar na Graça de Deus. Mas, afinal o que é Graça? No nível da espiritualidade o autor Tomás de Kempis em seu livro A imitação de Cristo define de forma simples e teológica o que é Graça:

“A graça de que falamos é a luz sobrenatural, o dom espiritual de Deus; a marca dos eleitos e o penhor da salvação eterna, que nos desperta das coisas terrenas para o amor do céu e, de carnais, nos torna espirituais”( cap. LIV, nº18, p. 448-449)

Realmente em Maria podemos encontrar essas características, ela que transformou e direcionou seu amor de um sentido horizontal para um Amor vertical, ou seja, não apenas em relação à humanidade, mas, em relação a Deus. Com esta batalha entre a Virgem e Satã torna-se “um fato comprovado que a Virgem nos avisa continuamente para nos defendermos do demônio” (AMORTH, 2012, p. 151). É no decorrer da vida de Maria e até mesmo aqui nessa perícope que estamos refletindo, podemos encontrar tais características da Graça nesta grande mulher que é um modelo de fé a ser seguido:

“A graça é reta, afasta-se de tudo que parece mal, não engana, age sempre tendo em vista Deus, em quem finalmente repousa. [...]. A graça, porém, mortifica-se, resiste à sensualidade, procura submeter-se, ser vencida e não exercer a escolha própria [...] A graça atribui fielmente a Deus toda homenagem e glória.” ( KEMPIS, cap. LIV, nº 1, 3, 5).

Verdadeiramente, a nossa fé não está fundamentada na Virgem Maria, mas, torna-se um sinal para a nossa fé que leva a Deus, ela que soube ser o contrário de tudo aquilo que o anjo caído planejava, realmente “uma delas é a criatura mais perfeita por natureza, a outra pela graça; uma delas se corrompe; a outra se santifica; uma delas quer ser rei e não servir, e, ao final, não é nada; a outra quer ser nada e servir e, no final, é rainha” (FORTEA, 2010, p. 84)

Concluindo, esta reflexão sobre esta batalha entre a Virgem, Mãe de Deus-Filho e Satanás no Apocalipse doze tem como objetivo servir de estereótipo para a nossa fé, o nosso modo de ser, pensar e principalmente aquilo que foi a causa da perseguição do Dragão àqueles que seguem a Deus: o testemunho de Jesus. Para quem está aberto a acolher a Graça de Deus o ódio eterno não triunfará e sendo assim, poderemos no final desta passagem terrena dizer semelhantes palavras a Satanás: “Não quero nada contigo. Jesus, meu forte defensor, para tua vergonha, te há de derrotar. Prefiro morrer e tudo sofrer a te dar qualquer sinal de consentimento. Cala a boca, fica mudo! Não mais te darei ouvidos, por mais que me provoques. O ‘Senhor é minha luz e minha Salvação, de quem terei medo?’ (Sl 27, 1)” (KEMPIS, Cap. VI, nº 8, p. 239)

Nenhum comentário: