PÚLPITOS PRÉ E PÓS-CONCILIARES
Sou José Fernandes de Oliveira, religioso dehoniano e sacerdote do Sagrado Coração de Jesus. Muitos me conhecem como Padre Zezinho scj. Prego, componho, leciono, atuo em rádio e televisão, escrevo artigos e livros e viajo para conferências e shows. Chamam-me para falar em congressos de família, catequeses, pastoral da comunicação e outros encontros de Igreja, onde minhas atividades e experiências de pregador podem ser úteis. Viajei por inúmeros países a serviço da fé e tive mais oportunidades do que milhares de outros pregadores a quem não foi dado ver o que a Igreja me mostrou. Tenho, pois, um dever para com os mais novos que em pouco enfrentarão plateias amiga ou hostis à Igreja.
Tenho 71 anos e vivi o pré e o pós Concílio. Faço parte da geração de pregadores da fé católica que sonharam ser sacerdotes num tipo de igreja e acordaram em outro. Adolescente ainda, fui para o seminário em l954, pensando em liderar o povo, subir as escadas do púlpito e, de lá de cima, pregar verdades católicas, celebrar a missa em latim e de costas para a assembleia, como quem conduz a prece, sair pelas ruas vestido de batina esvoaçante… Atenderia os pobres e os doentes como fazia o Padre Teodoro Becker scj, reitor do seminário onde eu “ajudava” na missa. Eram coisas de adolescente que sonha ser alguém no mundo e na Igreja.
Mas, em l966, um ano após o magno evento chamado Concílio Vaticano II, ordenado sacerdote, lá estava eu sem batina, primeiro de clergyman, depois de gravata e, finalmente, de manga curta e safari branco ou cinza, com uma cruz ao peito. Celebrava em português e já não “dizia”: “presidia” à missa, voltado para o povo porque o altar fora invertido. E tinha uma dezena de documentos em mãos para explicar ao povo em que aspectos e o porquê das nossas mudanças.
Havia novas coisas serem ditas, novas expressões, novas palavras, novos conceitos, novos personagens, novas pastorais, novos enfoques, novas atitudes e mais espaço para ampliar a teologia. Se eu escrevesse um livro para falar de tudo o que vi mudar, chegaria a mais de 500 páginas. Só a explicação dos novos termos e das novas pastorais exigiria centenas delas.
Foram tempos desafiadores para quem entrou na Igreja com uma cabeça e um foco teve que mudar cabeça e foco. No transplante muitas árvores perdem o viço! Não foram poucos os católicos que tomaram a bifurcação errada. Ou radicalizaram mudando mais do que sua igreja, ou radicalizaram não mudando o mínimo necessário. Para os que pensam que foi tudo um momento de bifurcação ou de mudança de trilhos e de bitola permitam-me lembrar que, para quem aceitou mudar, foi transição ariscada e perigosa. O trem católico poderia descarrilar. Na verdade eram muitos trens e muitas locomotivas e vagões. Não foram poucos os que saíram dos trilhos. Não se muda impunemente. E não tem sido diferente hoje com os novos movimentos e as novas comunidades.
Havia novas coisas serem ditas, novas expressões, novas palavras, novos conceitos, novos personagens, novas pastorais, novos enfoques, novas atitudes e mais espaço para ampliar a teologia. Se eu escrevesse um livro para falar de tudo o que vi mudar, chegaria a mais de 500 páginas. Só a explicação dos novos termos e das novas pastorais exigiria centenas delas.
Foram tempos desafiadores para quem entrou na Igreja com uma cabeça e um foco teve que mudar cabeça e foco. No transplante muitas árvores perdem o viço! Não foram poucos os católicos que tomaram a bifurcação errada. Ou radicalizaram mudando mais do que sua igreja, ou radicalizaram não mudando o mínimo necessário. Para os que pensam que foi tudo um momento de bifurcação ou de mudança de trilhos e de bitola permitam-me lembrar que, para quem aceitou mudar, foi transição ariscada e perigosa. O trem católico poderia descarrilar. Na verdade eram muitos trens e muitas locomotivas e vagões. Não foram poucos os que saíram dos trilhos. Não se muda impunemente. E não tem sido diferente hoje com os novos movimentos e as novas comunidades.
Podemos sonhar com uma igreja empertigada e dona da História e da verdade, ou com uma Igreja “Mater et Magistra”, mãe e mestra. Lembro-me ainda dos primeiros pronunciamentos de João XXIII e Paulo VI nas primeiras sessões. Seria travessia esperançosa, mas não seria fácil. Os papas foram os primeiros a dizê-lo, embora se mostrassem convictos de que Deus nos conduziria ao futuro sem graves rupturas. Ainda me soam aos ouvidos as primeiras conferências que ouvi nos Estados Unidos, onde estudava. Eram alvissareiras, um tanto quanto viscerais, típicas de gente que tinha pressa. Não faltaram as dos conservadores e ultraconservadores que viam tudo como desvio. Éramos jovens e desde cedo pudemos escolher. Os artigos e livros pululavam. Também os novos enfoques de teologia, e eclesiologia. Era novidade por onde se olhasse e a cada página folheada.
O Concílio terminou em l965, fui ordenado em l966. Voltei ao Brasil e ficou claro para mim que a Igreja que mudava lidava com forças antagônicas dentro e fora dela. Para mim nunca foi oba-oba. Paguei o preço desde os primeiros sermões. Ouvia de tudo. Como nos primeiros séculos do cristianismo, a coisa se politizara. Eu não era visto como suficientemente de esquerda, nem de direita nem de centro. O patrulhamento era agressivo. Eu era o padrezinho diminuto até no nome, metido a cantor, superficial e popularesco que pretendia mudar a Igreja para pior. Ganhei dois violentos artigos no “O Estado de São Paulo”, um, de Lenildo Tabosa Pessoa, no qual fui chamado de vaca sagrada. Outro católico conservador escreveu que eu ensacara meu violãozinho e entrara em crise de fé. Fiquei menos ingênuo a espeito de comunicação e mídia. Aprendi desde cedo que quem não tem estômago para criticas e calúnias não deve subir ao púlpito! Jornalista que era, o caluniador nem se deu ao trabalho de saber que eu tinha sido operado por causa de um grave acidente e que por sete meses precisei de intensos cuidados médicos para voltar a viajar e reassumir a vida missionária entre os jovens.
Naqueles dias quem ousasse propor mudanças era agredido e quem não mudasse radicalmente também era. O púlpito virou corredor polonês. Apanhava-se da direita poderosa e da esquerda operosa. Uns achavam que o outro ia devagar demais, outros que ia depressa. Eu que acabara de estudar História da Igreja via os debates estilo Clemente e Valentino, Atanásio e Ário, Cirilo e Nestório, e mais tarde, Mister Eckhart e Richard Rolle, ou Bernardo Claraval e Pedro Abelardo. Estava em livros eruditos, artigos populares, radicalismos de esquerda e de direita e de centro, porque havia também um centro radical…
Nos primeiros anos por aqui, Brasil, o púlpito foi para a esquerda política, depois deu uma guinada para a direita e para a neutralidade; no começo venceu a pregação do sócio-político. Trinta anos depois a pregação do social perdeu para a pregação do espiritual. Os cantos que, por quase três décadas lembravam a cruz e a dor do irmão, cederam a cantos de louvor ao Senhor da Glória que deve ser exaltado e que só ele é digno de todo louvor. Nos shows, agora, de cada vinte canções, dezenove celebravam o louvor e a glória. As liturgias que, segundo descreve Karen Amstrong em “Uma História de Deus”, no começo do cristianismo eram festivas e altamente emotivas, voltaram a estes eflúvios por influência do pentecostalismo que voltou forte e envolvente. A mídia católica aos poucos cedeu à liderança do acento de Pentecostes, que para alguns é visto como “cultura de Pentecostes”. A palavra libertação, até então característica da teologia do politico foi amenizada. Já não tinha contornos políticos e, sim, de ascese com missas de cura e libertação.
Eu vira o período JAC, JEC, JIC, JOC, JUC de antes do Vaticano II e, depois as pastorais sociais, as incursões na politica acentuadamente de esquerda, as ruas e passeatas, fábricas e universidades, campos e militâncias do pós Vaticano II e, aos poucos, vi também a reação dos moderados e conservadores. Via-os, visitava suas dioceses e conversava com os pró e os contra a Teologia da Libertação. Para ser honesto nunca me vi conservador, mas nunca tive a ousadia de me proclamar libertador. Fiz o jogo mais arriscado: quis ser aproximador. Escutava dos especialistas que era ou é impossível conciliar as duas teologias ou pastorais. Talvez não tivesse e ainda não tenha esta capacidade de entender as duas místicas. Mas tenho o desejo de saber o que leva os pregadores radicalmente para um lado ou para o outro. O que faz um Tertuliano, um Orígenes, um Montano, um Mani, um Atanásio ou um Dióscoro? Que injunções psicológicas jogam quem teve acesso aos mesmos livros e documentos para lados opostos?
Não havia como não tomar partido e posição. Eram tantas as hipóteses que não tomar posição era tomar posição. Como nos primeiros anos do cristianismo o outro era pintado como menos cristão ou bandido da fé. Havia debates ou insinuações radicais bem ao estilo de Alexandria e Antioquia ou Constantinopla em luta por um lugar no centro do império. Era a era do “ é por aqui que se vai”… Interessava-me ler e ouvir os dois lados. A quem um dia me chamou de pregador em cima do muro respondi que era a posição que demandava maior equilíbrio. A quem me rotulou como quadro, respondi que era o que tinha a razia perfeita. A quem me chamou de modernizante, mas não transformador respondi que o transformador não acende nada sem alguma chave modernizante. A quem me classificou como compositor- não-litúrgico lembrei que canção sacra e litúrgica eu conhecia, mas que não aceitava rótulos, a menos que chamassem Chico Buarque de autor não clássico e Chopin de compositor não sambista. Rotular é um jeito de negar ao colega o direito de evangelizar de maneira abrangente. Naqueles dias como hoje há uma enorme tendência de sectarizar e compartimentar a catequese. Há os de cá e os de lá!
Mas como as abóboras se ajustam ao andar da carroça e como raízes e solidez exigem tempo e doutrinas, vejo ajustes no horizonte. O Vaticano II que, a meu ver foi amordaçado em alguns púlpitos ou esquecido por conta de novidades mais provocadoras, volta a ser lembrado ainda que timidamente. A imensa maioria dos adultos e jovens de agora não leu aqueles documentos e os trata como se fossem textos históricos que perderam atualidade. Raramente se vê um pregador a citar aqueles documentos e os que, na América Latina e no Brasil, surgiram por conta deles.
A meu ver perdeu-se a reverência e, com ela as referências, ou vice-versa. Éramos pré-conciliares, tornamo-nos pós-conciliares, mas receio ter que afirmar, -assumindo a polêmica que meu dito possa suscitar-, receio que na maioria dos púlpitos o Vaticano II não entra. Nem ele nem Puebla, nem Santo Domingo, nem Aparecida…
Como naqueles dias, gravo o que vejo e ouço, por conta das aulas e encontros que sou chamado a dar sobre Pratica e Crítica de Comunicação nas Igrejas, e não percebo as luzes do Vaticano II em muitas cátedras. É como se não tivesse existido. Seminários administram alguns cursos. Mal sabem os pregadores jovens, os ministros e ministras da eucaristia, os cantores e bandas com guitarra e bateria, as meninas perto do altar, os leitores, os diáconos leigos, os movimentos que hoje agitam a cena nos templos e nos estádios, que não estariam lá sem o Vaticano II. Mal sabem os candidatos a vereador com o apoio da comunidade, os fundadores de comunidades de vida, os que hoje pregam seminários de vida no Espirito Santo, os que falam de curas e libertações que, se não são cerceados no nascedouro, é porque houve um Concílio Vaticano II e uma eclesiologia mais aberta.
Abro volumes de História do Cristianismo escrita por irmãos de outras igrejas e percebo que, para eles, também o Vaticano II foi um marco histórico. Sem o Vaticano II seria impensável um texto como “ Evangelical and Catholics Together” de l994; dezoito importantes teólogos protestantes e quinze famoso teólogos católicos, a buscar juntos formulações teológicas que nos aproximem ainda que com diferenças. Vejo que se estuda a Bíblia junto. Os biblistas e teólogos se ouvem sem aqueles debates ferinos do passado. Um Karl Rahner católico é respeitado entre os evangélicos e um Karl Barth evangélico é lido com respeito pelos católicos. Com eles, dezenas de pensadores das mais diversas igrejas. Teólogos católicos de profundos estudos lecionam em universidades evangélicas e teólogos evangélicos de notório conhecimentos lecionam em universidades católicas.
Os “contra” dirão que é por isto que perdemos. Os “pró” dirão que a História ainda não acabou e que o diálogo talvez seja a única chance de as igrejas que se propuseram salvar o mundo se salvem também elas.
A meu ver perdeu-se a reverência e, com ela as referências, ou vice-versa. Éramos pré-conciliares, tornamo-nos pós-conciliares, mas receio ter que afirmar, -assumindo a polêmica que meu dito possa suscitar-, receio que na maioria dos púlpitos o Vaticano II não entra. Nem ele nem Puebla, nem Santo Domingo, nem Aparecida…
Como naqueles dias, gravo o que vejo e ouço, por conta das aulas e encontros que sou chamado a dar sobre Pratica e Crítica de Comunicação nas Igrejas, e não percebo as luzes do Vaticano II em muitas cátedras. É como se não tivesse existido. Seminários administram alguns cursos. Mal sabem os pregadores jovens, os ministros e ministras da eucaristia, os cantores e bandas com guitarra e bateria, as meninas perto do altar, os leitores, os diáconos leigos, os movimentos que hoje agitam a cena nos templos e nos estádios, que não estariam lá sem o Vaticano II. Mal sabem os candidatos a vereador com o apoio da comunidade, os fundadores de comunidades de vida, os que hoje pregam seminários de vida no Espirito Santo, os que falam de curas e libertações que, se não são cerceados no nascedouro, é porque houve um Concílio Vaticano II e uma eclesiologia mais aberta.
Abro volumes de História do Cristianismo escrita por irmãos de outras igrejas e percebo que, para eles, também o Vaticano II foi um marco histórico. Sem o Vaticano II seria impensável um texto como “ Evangelical and Catholics Together” de l994; dezoito importantes teólogos protestantes e quinze famoso teólogos católicos, a buscar juntos formulações teológicas que nos aproximem ainda que com diferenças. Vejo que se estuda a Bíblia junto. Os biblistas e teólogos se ouvem sem aqueles debates ferinos do passado. Um Karl Rahner católico é respeitado entre os evangélicos e um Karl Barth evangélico é lido com respeito pelos católicos. Com eles, dezenas de pensadores das mais diversas igrejas. Teólogos católicos de profundos estudos lecionam em universidades evangélicas e teólogos evangélicos de notório conhecimentos lecionam em universidades católicas.
Os “contra” dirão que é por isto que perdemos. Os “pró” dirão que a História ainda não acabou e que o diálogo talvez seja a única chance de as igrejas que se propuseram salvar o mundo se salvem também elas.
Como no após 1848 os laicistas e ateus declarados chegaram aos governos europeus com a força da mídia e da política da época, e as igrejas cristãs perderam espaço, hoje um gigantesco divórcio entre a vida e a fé ameaça outra vez as igrejas. Urgentes como se tornou o mundo elas correm para a mídia e investem pesado na conquista de ouvintes e novos fiéis. Pregadores que trocam a doutrina pelo entusiasmo tiram os fiéis uns dos outros e os colocam sob seus púlpitos e microfones, nem sempre percebem que sem o diálogo primeiro de Fé & Fé e o outro de Igreja & Mundo o trem da fé poderá descarrilar tão depressa como acelerou.
Sou dos que aos setenta anos leem autores que se debruçam sobre o sociológico e o psicológico da fé. Percebo o gigantesco esforço do Papa, dos nossos bispos e dos estudiosos da vida e da fé preocupados em achar não a linguagem que encha templos, mas a que forme pessoas profundas e coerentes. Já sabemos como encher templos e estádios. O difícil é enraizar conceitos novos e levar a estes fiéis e a seus netos e bisnetos as riquezas daquele magno encontro que por um tempo sacudiu a Igreja Católica.
Num enorme volume sobre o cristianismo vejo às paginas 382-383 dois sorridentes líderes de Igrejas, o papa católico e o patriarca ortodoxo de mãos dadas e erguidas a saudar os fiéis. Vejo a Igreja aproximar e governos ateus e ser respeitada por eles; relembro a morte de João Paulo II e o séquito de governos e igrejas a lhe prestar a últimas reverências porque ele se aproximou; vejo judeus e muçulmanos aceitarem encontros com os católicos; percebo novos entusiasmos e também novas decepções e novos questionamentos, mas algo me diz que valeu a pena ficar e ver tudo isso.
Num enorme volume sobre o cristianismo vejo às paginas 382-383 dois sorridentes líderes de Igrejas, o papa católico e o patriarca ortodoxo de mãos dadas e erguidas a saudar os fiéis. Vejo a Igreja aproximar e governos ateus e ser respeitada por eles; relembro a morte de João Paulo II e o séquito de governos e igrejas a lhe prestar a últimas reverências porque ele se aproximou; vejo judeus e muçulmanos aceitarem encontros com os católicos; percebo novos entusiasmos e também novas decepções e novos questionamentos, mas algo me diz que valeu a pena ficar e ver tudo isso.
Respeito quem perdeu a fé na Igreja ou no ministério e, hoje, segue suas convicções, porque também isso o Vaticano II me ensinou em pelo menos três dos seus documentos.
A meu modo, por onde passo tento despertar curiosidade sobre o que entre l962 e l965 disseram aqueles cerca de 2.500 mil bispos e seus assessores, convocados por João XXIII, um papa quase octogenário, que já no nome apagava e confrontava o de outro João XXIII. O ancião eleito decidiu que poderia contribuir para mudar a história da sua Igreja. Alguns nunca o perdoaram por isso. Seu sucessor, Paulo VI levou as reflexões a bom termo. Dali por diante, sacerdote ou leigo que estuda sua fé só não entende se não quiser. O leque se abriu, as colunatas do Vaticano se abriram ainda mais e pode-se entrar e sair da Basílica de São Pedro sem grandes medos; mas quem o fizer assuma as consequências do seu ir e vir! Se ficar, aceite os novos ângulos e as novas atitudes da sua Igreja!
Depois do Vaticano II não há lugar para projetos pessoais. Quem neles insistir corre o risco de perder o trem da História. Se acha que estamos perdendo, espere um pouco! Temos vinte séculos de perdas e ganhos. Quem puder releia os discursos de abertura proferidos por João XXIII e Paulo VI. É aquilo e muito mais do que aquilo. Somos a Igreja da Palavra partilhada e do Pão repartido. Temos uma santa ousadia que poucas igrejas têm. Começa com a coragem de começar nossas liturgias admitindo que somos pecadores e outra vez repetir antes da comunhão que precisam da piedade do céu. É a santa culpa de católico que muita gente aparentemente resolvida ridiculariza, mas sem a qual ninguém é justo e ninguém chega. Aviões cujos computadores não corrigem até os mais leves desvios acabam fora de rota. Somos e seremos uma Igreja penitente e cheia de mea-culpa, mas também uma igreja que crê no sacramento do perdão. Para nós a culpa nunca vem sem a perspectiva do perdão. Por isso, mesmo que tenha demorado, em vários documentos já pedimos e pediremos perdão a judeus, evangélicos ou irmãos a quem magoamos no passado. Uma igreja que não pede perdão ainda não entendeu nem de Cristologia nem de Eclesiologia.
A meu modo, por onde passo tento despertar curiosidade sobre o que entre l962 e l965 disseram aqueles cerca de 2.500 mil bispos e seus assessores, convocados por João XXIII, um papa quase octogenário, que já no nome apagava e confrontava o de outro João XXIII. O ancião eleito decidiu que poderia contribuir para mudar a história da sua Igreja. Alguns nunca o perdoaram por isso. Seu sucessor, Paulo VI levou as reflexões a bom termo. Dali por diante, sacerdote ou leigo que estuda sua fé só não entende se não quiser. O leque se abriu, as colunatas do Vaticano se abriram ainda mais e pode-se entrar e sair da Basílica de São Pedro sem grandes medos; mas quem o fizer assuma as consequências do seu ir e vir! Se ficar, aceite os novos ângulos e as novas atitudes da sua Igreja!
Depois do Vaticano II não há lugar para projetos pessoais. Quem neles insistir corre o risco de perder o trem da História. Se acha que estamos perdendo, espere um pouco! Temos vinte séculos de perdas e ganhos. Quem puder releia os discursos de abertura proferidos por João XXIII e Paulo VI. É aquilo e muito mais do que aquilo. Somos a Igreja da Palavra partilhada e do Pão repartido. Temos uma santa ousadia que poucas igrejas têm. Começa com a coragem de começar nossas liturgias admitindo que somos pecadores e outra vez repetir antes da comunhão que precisam da piedade do céu. É a santa culpa de católico que muita gente aparentemente resolvida ridiculariza, mas sem a qual ninguém é justo e ninguém chega. Aviões cujos computadores não corrigem até os mais leves desvios acabam fora de rota. Somos e seremos uma Igreja penitente e cheia de mea-culpa, mas também uma igreja que crê no sacramento do perdão. Para nós a culpa nunca vem sem a perspectiva do perdão. Por isso, mesmo que tenha demorado, em vários documentos já pedimos e pediremos perdão a judeus, evangélicos ou irmãos a quem magoamos no passado. Uma igreja que não pede perdão ainda não entendeu nem de Cristologia nem de Eclesiologia.
A proposta do 21° Concílio Ecumênico dos católicos não foi tanto a de clamar por milagres para o nosso tempo. Foi mais: foi e segue sendo a de sermos um dos milagres de nosso tempo! Olhem para os santos e mártires de agora e para os nossos mais recentes anjos de bondade que a Igreja viu nestes últimos 50 anos. Viveram a mística da Gaudium et Spes, da Populorum Progressio e da Solicitudo Rei Socialis. É verdade que a alteridade católica não começou no Vaticano II, mas também é verdade que sem ele as vozes do mundo teriam silenciado de vez a da Igreja. Para mim o Vaticano II emitiu dois gritos: Procedamus! (prossigamos) e Non licet! ( Isto não aceitaremos! )
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